Belgrado: multidão presta homenagem a Ratko Mladic entre tensão diplomática e retorno do nacionalismo

Milhares em Belgrado homenageiam Ratko Mladic; cerimônia reacende tensões, críticas da UE e advertências dos EUA sobre glorificação do condenado.

Belgrado: multidão presta homenagem a Ratko Mladic entre tensão diplomática e retorno do nacionalismo

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Belgrado: multidão presta homenagem a Ratko Mladic entre tensão diplomática e retorno do nacionalismo

Por Marco Severini — Em um movimento que revela as tensões seculares do balcão geopolítico e a fragilidade dos alicerces democráticos, a cidade de Belgrado tornou-se palco de uma cerimônia carregada de simbolismo. Milhares de pessoas convergiram para os funerais do condenado por crimes de guerra Ratko Mladic, falecido no final de agosto aos 84 anos enquanto cumpria prisão perpétua na Haia por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante a guerra da Bósnia.

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A partir das 7h, fiéis e simpatizantes se aglomeraram na Igreja de São Lúcas, beijando o caixão já fechado enquanto padres da Igreja Ortodoxa Sérvia conduziam o ofício. A imprensa local noticiou que Mladic deverá receber honras militares e que o patriarca Porfirije presidiu a cerimônia, conferindo à despedida um tom oficial que reverbera além dos muros religiosos.

Ao redor da igreja, as forças policiais interditaram vias para permitir a chegada de apoiadores — muitos trajando camisas em defesa de Mladic e agitadores de bandeiras sérvias. Um extenso banner lançado sobre a via dizia: "Bem-vindo, General, obrigado à sua mãe por ter gerado um herói, para que a glória da Sérvia possa regressar". Tal imagem funciona como mapa simbólico: linhas que redesenham, no imaginário, fronteiras invisíveis de influência e memória.

O presidente sérvio Aleksandar Vučić anunciou que não compareceria à cerimônia, alegando um compromisso inadiável com o presidente uzbeque Shavkat Mirziyoyev, em visita a Belgrado. A ausência do chefe de Estado, contudo, não apaziguou as tensões externas — ao contrário, tornou o episódio um teste político e diplomático.

O ressurgimento de sentimentos nacionalistas ficou evidente não apenas nas ruas, mas também nas arquibancadas: torcidas organizadas dos dois principais clubes de Belgrado prestaram homenagem conjunta a Mladic durante o derby local, um gesto que traduz a tectônica de poder que reativa memórias e alianças internas.

Em Bruxelas, a reação foi dura. A comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, cancelou visita à Sérvia, afirmando que glorificar um condenado por genocídio é incompatível com os valores do processo de integração à União Europeia. Nos Estados Unidos, um pequeno grupo bipartidário de parlamentares — incluindo a senadora Jeanne Shaheen, o republicano Chuck Grassley e o deputado Keith Self — emitiu declaração conjunta advertindo Belgrado e as autoridades da Republika Srpska a não participarem de cerimônias oficiais em louvor a Mladic, lembrando-o como autor do genocídio de Srebrenica.

Este episódio funciona, do ponto de vista estratégico, como um movimento decisivo no tabuleiro: mede-se não apenas a reação do Estado, mas a capacidade de uma sociedade para encarar seu passado e alinhar-se às normas de um projeto geopolítico maior. Se os funerais expõem velhas feridas, as respostas internacionais — políticas, simbólicas e diplomáticas — mapeiam o caminho das possibilidades e os limites do retorno ao isolamento.

Em suma, a despedida de Ratko Mladic em Belgrado não é apenas um evento fúnebre: é um termômetro das correntes que varrem os Balcãs, um indicador da estabilidade das relações de poder e um desafio aos alicerces frágeis da diplomacia euro-atlântica.

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