ONU pede liberação imediata de dois ativistas da Flotilla; mãe de Thiago Ávila morre enquanto ele segue detido
ONU exige liberação de dois ativistas da Flotilla; mãe de Thiago Ávila morre e família pede sua volta para o funeral enquanto Israel mantém detenção.
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ONU pede liberação imediata de dois ativistas da Flotilla; mãe de Thiago Ávila morre enquanto ele segue detido
Por Marco Severini — Em um movimento que revela fissuras na diplomacia internacional, a ONU solicitou o imediato ressarcimento da liberdade dos dois ativistas da Flotilla retidos após o abordo da Marinha israelense na madrugada entre 28 e 29 de abril. No mesmo dia, veio a confirmação de um destino mais íntimo e doloroso: morreu em Brasília Teresa Regina de Ávila e Silva, mãe de Thiago Avila, um dos dois detidos.
Aos 63 anos, segundo nota da organização Global Sumud Flotilla (Gsf), Teresa enfrentou anos de doença com dignidade. A família partilhou a imagem e declarou que a filha de Thiago, de dois anos, recebeu o nome da avó. Em Brasília, os parentes pedem com urgência a liberação de Thiago para que possa retornar e participar dos ritos fúnebres — um pedido que esbarra, por ora, no complexo tabuleiro jurídico e geopolítico que sustenta a detenção.
O Tribunal Distrital de Beersheba, em Israel, rejeitou o pedido de soltura e prolongou a detenção de Thiago Avila e de Saif Abu Keshek — este último palestino com cidadania espanhola — até 11 de maio, segundo informou o Times of Israel. A decisão, embasada em "elementos de prova secretos" apresentados ao juízo do magistrado Yaniv Ben-Haroush, não foi tornada visível nem aos réus nem às respectivas defesas, conforme relata a Gsf.
A ONG israelense de direitos humanos Adalah, que representa os dois ativistas, qualificou a sentença como "ilegítima e irrazoável", apontando para a ausência de fundamento legal do Estado para efetuar a apreensão em águas internacionais — um argumento que, em termos estratégicos, questiona a própria jurisdição que sustenta a operação. Para Adalah, o episódio equivaleria a um rapto, uma vez que o abordo ocorreu a mais de mil quilômetros de Gaza, conforme enfatizaram os advogados Hadeel Abu Salih e Lubna Tuma.
Os ativistas, que integravam a segunda missão da Gsf destinada ao transporte de auxílio humanitário, foram interceptados sob a alegação israelense de que a missão representaria ameaça à segurança nacional, com supostos vínculos ao movimento Hamas. Mais de 270 participantes foram levados ao país; contudo, apenas Thiago e Saif permanecem detidos. Ambos mantêm desde então uma greve de fome, já com sete dias, como forma de protesto contra a detenção e as condições a ela associadas.
Num contexto onde provas secretas e decisões judiciais aceleram um redesenho invisível das fronteiras jurídicas, a situação coloca em xeque não apenas a liberdade individual dos ativistas, mas os alicerces frágeis da diplomacia em alto-mar. A Gsf denuncia ainda que ambos estariam sendo mantidos «em total isolamento», amplificando o escrutínio internacional sobre procedimentos israelenses e lançando uma nova peça no já complexo mosaico de influências que define a atual tectônica de poder regional.
Adalah anunciou recurso contra a decisão do tribunal. Enquanto isso, familiares, ONGs e organismos internacionais observam o desenrolar deste movimento decisivo no tabuleiro — cujo próximo lance poderá repercutir não apenas no retorno de um filho ao funeral da mãe, mas na própria interpretação do Direito Internacional sobre intervenções em alto-mar.