Investigação revela: Israel mantinha duas bases secretas no deserto do Iraque para ataques ao Irã
Investigação do NYT revela que Israel operou duas bases secretas no Iraque para ações contra o Irã, com apoio tácito de Washington e riscos à soberania regional.
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Investigação revela: Israel mantinha duas bases secretas no deserto do Iraque para ataques ao Irã
Por Marco Severini
Uma investigação aprofundada do New York Times, que amplia reportagens anteriores do Wall Street Journal, expõe um movimento estratégico que redesenha, de modo sutil e perigoso, a tectônica de poder no Oriente Médio: Israel operou, por mais de um ano, duas bases secretas no deserto do Iraque, concebidas para sustentar e encurtar logísticas destinadas a ações militares contra o Irã.
Os elementos apurados mostram que a primeira dessas instalações foi estabelecida no final de 2024 no deserto ocidental iraquiano. Tratava‑se não de um improviso, mas de uma estrutura planejada com antecedência, visando operações aéreas de longo alcance — inclusive utilizadas durante o ataque israelense ao Irã em junho de 2025, operação conhecida como Rising Lion. A segunda base, erguida pouco antes da guerra deflagrada em fevereiro de 2026, localizava‑se na província de Anbar, na vasta faixa árida a oeste do Eufrates, na direção da Síria e da Jordânia.
Segundo relatos, essas plataformas logísticas eram dotadas de instalações para apoio de aviação, elementos de forças especiais e equipes de busca e salvamento destinadas a recuperar tripulações abatidas. Fontes citadas pelo jornal Maariv indicam que havia, inclusive, equipamentos médicos para atendimento de pilotos feridos. Há ainda menções a possível presença da unidade de elite Shaldag das Forças de Defesa Israelenses entre os contingentes destacados nesses pontos.
Outra dimensão técnica do projeto foi a instalação de dispositivos de interferência de sinais GPS na região — uma precaução que, segundo fontes de segurança iraquianas, foi implementada para proteger os locais contra descobertas e para dificultar qualquer tentativa de localização externa. Essa combinação de infraestrutura, comandos especiais e contramedidas eletrônicas define um quadro de operações concebidas para reduzir distâncias e tempos de resposta, transformando o deserto iraquiano em um palco logístico para projeção de poder aérea.
Além do aspecto militar, há uma dimensão humana e de soberania nacional que não pode ser ignorada. A investigação relata um incidente emblemático, ocorrido em 3 de março de 2026: Awad al‑Shammari, pastor beduíno de 29 anos, seguia por estradas de terra na região de Najaf quando, casualmente, se deparou com uma das instalações. Encontrou helicópteros, tendas e militares. Fez o que qualquer cidadão faria ao ver sinais de violação de território — tentou notificar as autoridades iraquianas. O desfecho desse encontro, e os custos humanos que decorrem de operações encobertas em zonas habitadas por civis, sublinham os alicerces frágeis da diplomacia regional quando confrontados com a prática extraterritorial de políticas de segurança.
Há também, por trás desses movimentos, uma dimensão diplomática e política com implicações para a relação entre Washington e Bagdá. A reportagem sugere que Washington tinha conhecimento, em níveis variados, das operações — um silêncio que equilibra cumplicidade e conveniência geopolítica. Esse constrangimento entre aliados recalibra o tabuleiro: confiança entre Estados soberanos fica abalada quando o princípio da inviolabilidade territorial é transposto em nome de cálculos de vantagem estratégica.
As revelações reforçam uma visão fria e pragmática: a região continua a ser tratada como um tabuleiro onde movimentos decisivos são executados com rapidez e discrição, muitas vezes à custa da transparência e do respeito à soberania. Para analistas de longo curso, tais revelações são menos uma surpresa e mais a confirmação de práticas repetidas — porém com consequências concretas para a estabilidade regional, para as populações locais e para o delicado equilíbrio entre aliados.
Enquanto as capitais debatem respostas e justificativas, permanece a pergunta central: que tipo de ordem internacional persiste quando operações militares clandestinas cruzam fronteiras, redesenhando fronteiras invisíveis e deixando em seu rastro tanto ganhos estratégicos quanto riscos políticos e humanos?
Fonte: New York Times; Wall Street Journal; Maariv.