Etiópia: drone atinge TV pública do Tigré e reaviva combates no norte
Drone atinge TV pública do Tigré; combates se estendem ao sexto dia e forças tigrinas avançam em Afar, enquanto Addis toma medidas de segurança.
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Etiópia: drone atinge TV pública do Tigré e reaviva combates no norte
Uma sede da televisão pública do Tigré, região norte da Etiópia que desde 2020 mantém um histórico de confronto com o governo federal, foi atingida por um drone nesta quarta-feira, segundo relatos de jornalistas da emissora. O ataque marca uma escalada simbólica e operacional num teatro de operações já profundamente fragilizado.
Os confrontos no norte do país voltaram a intensificar-se e alcançaram o sexto dia, envolvendo de um lado as forças federais e seus aliados e, do outro, as tropas do TPLF — o Front de Libertação Popular do Tigré — e grupos armados aliados. Informações transmitidas por Al Jazeera indicam que as forças tigrinas assumiram o controle de três cidades na vizinha região de Afar, penetrando nas chamadas Áreas 2 e 4, conforme declaração de Mohamed Hussein, líder do partido no governo regional de Afar. A posição geográfica de Afar, na fronteira com Djibuti e Eritreia, confere à região uma importância estratégica relevante no tabuleiro de influência do Chifre da África.
Em Addis Abeba, a capital, as autoridades instituíram medidas de segurança excepcionais diante de informações de inteligência sobre possíveis atentados contra oficiais do exército federal atribuídos à coalizão de oposição. Entre as restrições está a proibição do tráfego de motocicletas e scooters, segundo relatos da mídia regional. Simultaneamente, o Tigré enfrenta um corte generalizado das comunicações por iniciativa governamental, situação que já provoca pânico logístico: moradores buscam estocar alimentos e efetuam retiradas de numerário, temendo uma repetição do cerco e das hostilidades observadas no conflito anterior.
As raízes desta reativação da violência remontam a uma disputa política e identitária de longa duração. Durante cerca de três décadas, entre 1991 e 2018, os tigrinos ocuparam posição de destaque na coalizão governamental etíope e foram promotores de um modelo federalista baseado em critérios étnicos e na ampla autonomia regional. A ascensão ao poder de Abiy Ahmed, em 2018, representou um movimento de centralização: a dissolução da antiga coligação e a criação do Partido da Prosperidade converteram-se em sinal de ruptura. O TPLF recusou-se a integrar a nova formação centralizadora, interpretando-a como uma ameaça à autonomia conquistada — um distanciamento que ao longo dos anos foi cavando fissuras institucionais e políticas.
O ponto de ruptura veio no verão de 2020, em meio à pandemia de Covid-19, quando o governo de Abiy adiou as eleições. A postergação exacerbada do conflito de legitimidade conduziu, gradualmente, ao confronto armado que se intensificou entre 2020 e 2022 e agora ressurge como nova fase de uma disputa não resolvida.
Do ponto de vista estratégico, tratamos de um movimento decisivo no tabuleiro regional: o ataque à infraestrutura de comunicação do inimigo opera tanto no campo físico quanto simbólico, procurando desorganizar narrativas e controlar o fluxo de informação. A retomada das hostilidades em Afar indica um redesenho de fronteiras invisíveis, onde posses territoriais e rotas logísticas são peças-chave. Em termos de estabilidade regional, a tectônica de poder no Chifre da África permanece instável; qualquer nova escalada pode reconfigurar alianças e afetar corredores comerciais e militares com implicações internacionais.
Enquanto as informações seguem fragmentadas devido ao blackout, a comunidade internacional observa com apreensão a evolução dos eventos. Resta acompanhar, com cautela diplomática e análise cartográfica apurada, como as próximas jogadas serão articuladas por Addis Abeba, pelo TPLF e por atores regionais interessados em preservar ou ampliar zonas de influência.

