Qatar recua: de mediador em Gaza a espectador cético diante do confronto EUA-Irã

Qatar afasta-se das negociações EUA‑Irã; Golfo cético enquanto estufa tensões e risco no Estreito de Hormuz afeta economia e segurança.

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Qatar recua: de mediador em Gaza a espectador cético diante do confronto EUA-Irã

Por Marco Severini — Em um movimento que altera o equilíbrio diplomático no tabuleiro do Oriente Médio, o Qatar, até então referência como mediador em crises que vão do Afghanistan ao Sudão e, mais recentemente, em Gaza e no Líbano, adotou uma posição de distância das negociações diretas entre EUA e Irã. Doha declara manter "contatos estreitos" com Washington sobre o conflito com a República Islâmica, mas sublinha não participar "diretamente" da partida negocial que agora mobiliza atores regionais.

Na linha de frente das conversações estão Paquistão, Turquia e Egito, enquanto se registra a ausência de atores que haviam sido relevantes nas temporadas anteriores de negociações indiretas — como o Omã. Essas rodadas prévias, recorde-se, terminaram em bombardeios americanos e israelenses, tanto em junho de 2025 quanto no final de fevereiro deste ano, mostrando que as vias discretas da diplomacia nem sempre evitam a erosão dos alicerces da estabilidade.

Analistas e observadores do Golfo interpretam o distanciamento de Doha como expressão de um ceticismo mais amplo entre os Estados do Golfo diante do anúncio, feito nas últimas semanas pelo presidente Donald Trump, de um encontro com Teerã para encerrar a guerra. Após anos de um lento rapprochement diplomático com o Irã e semanas de alertas públicos sobre o risco de escalada, os países do Golfo — e Israel — passaram a ser alvo dos ataques dos Pasdaran. Ao longo desse episódio, turistas abandonaram a região, instalações energéticas foram atingidas e a economia regional sofreu impactos diretos.

Paira ainda a ameaça estratégica do bloqueio do Estreito de Hormuz, cujo encerramento teria repercussões dramáticas, dado que por ali trafega a maior parte do petróleo e gás exportados pelos Estados do Golfo. O custo dessa guerra — que muitos atribuem à conjunção de decisões políticas entre Trump e Netanyahu — cresce dia a dia, não apenas em termos econômicos, mas também em vidas humanas: em Abu Dhabi, fragmentos de um míssil interceptado provocaram esta manhã a morte de duas pessoas e ferimentos em outras três.

Nesse contexto, a frustração dos Estados do Golfo é palpável. Sentem‑se, segundo interlocutores locais, como 'peças' de um jogo cujas regras lhes são impostas e reportam desconfiança em relação à administração americana, cuja estratégia não lhes parece clara o suficiente para justificar um envolvimento de primeira linha nas negociações. O Qatar, em especial, desafia seu papel histórico de mediador — um movimento tático que revela cautela diante do risco de a retórica diplomática ocultar um pretexto para nova escalada militar.

Ao mesmo tempo, contudo, há consciência de que os países do Golfo não podem permanecer excluídos das mesas onde se decidirão os termos de uma trégua e os contornos dos futuros cenários regionais. O secretário‑geral do Conselho de Cooperação do GCC, o kuwaitiano Jasem Al Budaiwi, enfatizou a "necessidade de envolver os países do GCC em qualquer negociação ou acordo para resolver esta crise, de forma a contribuir para reforçar segurança e estabilidade".

Da Doha, o ex‑primeiro‑ministro qatari Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani reforçou a mesma ideia: os Estados do GCC não podem ser deixados de fora de nenhuma mesa em que se desenhem os futuros limites políticos e de segurança da região. Em termos geopolíticos, trata‑se de um redesenho de fronteiras invisíveis e de uma tectônica de poder na qual cada movimento é calculado, e cujo custo de erro aumenta à medida que as chaves estratégicas — acesso energético e rotas marítimas — ficam mais expostas.