Trump e a volta da Madman Theory: risco estratégico e impacto na crise energética

Trump reacende a Madman Theory em confronto com o Irã, elevando riscos à estabilidade energética e geopolítica global.

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Trump e a volta da Madman Theory: risco estratégico e impacto na crise energética

Por Marco Severini — A atual conjuntura internacional reaviva uma estratégia que parecia relicário da Guerra Fria: a Madman Theory, associada historicamente a Richard Nixon, retorna ao centro do debate para explicar a postura do presidente Donald Trump diante do conflito com o Irã. Essa teoria, em essência, postula que a percepção de imprevisibilidade e de disposição para ações extremas pode coercitivamente levar um adversário à mesa das negociações.

O historiador Zachary Jonathan Jacobson lembrava que Nixon não se via como louco, mas como sagaz; a lógica segue igual no tabuleiro contemporâneo: a ameaça calculada da irracionalidade exerce pressão. No entanto, a eficácia dessa aposta é historicamente ambígua. No Vietnã, a estratégia não produziu vitórias duradouras. Hoje, o risco é maior porque o prumo econômico global tem no petróleo um eixo sensível — e o Irã está no coração desse eixo.

Em pouco mais de trinta dias de confronto — 38 dias, segundo os cronômetros recentes — a administração americana adotou um tom e uma prática que remetem a esse expediente: negociações conduzidas com uma combinação de brutalidade retórica e ações militares de alta visibilidade. O lançamento da operação Epic Fury, enquanto diálogos ocorriam, evidencia esta dissonância deliberada entre diplomacia e demonstração de força. A referência à surpresa estratégica, evocando analogias históricas como o ataque a Pearl Harbor, é deliberada e calculada no plano de guerra psicológica.

Mas a analogia tem limites e consequências palpáveis. O Vietnã da metade do século XX não ocupava a mesma centralidade das cadeias de fornecimento energéticas globais que o Irã possui no século XXI. Uma sequência de semanas de bombardeios já vislumbra a possibilidade de uma das piores crises energéticas das últimas décadas: inflação de preços do petróleo que pode resvalar para escassez real de combustível e perturbar cadeias produtivas e mercados.

Além do impacto econômico, há feridas infraestruturais que podem demorar anos a ser cicatrizadas — como assinalou a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. Acresce o fator humano: um eventual colapso do Estado iraniano poderia desencadear um êxodo massivo de refugiados, redesenhando fronteiras invisíveis e criando novas linhas de tensão geopolítica.

O uso eleitoral e midiático de táticas de intimidação encontra paralelo em outros atores que operam na mesma lógica de imprevisibilidade: Vladimir Putin, Kim Jong-un e, claro, o próprio Donald Trump. A pergunta que paira é dupla e estratégica: até que ponto a ambiguidade deliberada preserva credibilidade? E em que medida o susto global se traduz, de fato, em vantagens tangíveis?

Na linguagem do xadrez diplomático, praticar a Madman Theory é mover uma peça de alto valor em direção ao centro do tabuleiro, esperando que o adversário recuar para evitar o xeque-mate. Mas quando a peça em jogo é a estabilidade energética e as linhas de abastecimento global, o risco de um movimento decisivo se transformar em colapso do tabuleiro é real. A estratégia pode funcionar como blefe — ou como catalisador de uma tectônica de poder que remodela alianças e económicas.

Enquanto os diplomatas medem palavras e os estrategistas redesenham cenários, permanece a necessidade de avaliação fria: a intimidação calculada e a criação de uma aura de instabilidade podem, em curto prazo, forçar concessões, mas a longo prazo corroem alicerces de confiança indispensáveis à governança global. A aposta é alta; o preço, potencialmente, inestimável.