Zelensky diz que está pronto para encontrar Putin, mas descarta Moscou ou Kiev como palco do encontro
Zelensky aceita encontro com Putin em local neutro, rejeita ceder Donbass e exige garantias de segurança com apoio europeu e americano.
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Zelensky diz que está pronto para encontrar Putin, mas descarta Moscou ou Kiev como palco do encontro
Por Marco Severini — Em um pronunciamento de porte diplomático e de leitura estratégica, o presidente ucraniano Zelensky afirmou estar disposto a um encontro com Putin, desde que as condições sejam apropriadas e o local seja neutro: não em Moscou nem em Kiev. 'Se ele está pronto para me encontrar, há muitos lugares para isso: Oriente Médio, Europa, Estados Unidos, em qualquer lugar', disse o mandatário em entrevista ao Gr Rai.
Na análise do presidente, porém, não existe opção simples sobre o Donbass. 'Não podemos simplesmente discutir a cessão do Donbass. Se o deixarmos aos russos, ocuparão posições que hoje nos permitem defender melhor. Recuperar linhas defensivas pode levar um ano ou ano e meio', advertiu. Essa avaliação é um reconhecimento dos custos estratégicos de um recuo territorial e da necessidade de reconstrução de linhas de defesa — um movimento que, no tabuleiro da geopolítica, altera permanentemente a arquitetura da segurança regional.
Zelensky sublinha o risco de que a perda do Donbass abra caminho para novos ataques: cidades como Kharkiv e outros centros que sustentam parte significativa do PIB ucraniano poderiam ser alvo, gerando uma fratura social que, segundo ele, é objetivo central de Putin para corroer a independência da Ucrânia.
Sobre o recente cessar-fogo no Irã, o presidente elogiou os Estados Unidos: 'Parabenizo os Estados Unidos pelo resultado alcançado. Isso tornará mais fácil enfrentar a crise energética'. Ainda assim, reforçou que o apoio à Ucrânia deve prosseguir, sobretudo no fornecimento de armamentos. Segundo Zelensky, a concentração norte-americana no Oriente Médio levou ao adiamento das negociações tripartites com a Rússia, que, afirmou, serão retomadas.
No capítulo diplomático-europeu, Zelensky fez questão de destacar a posição da Itália e da primeira-ministra Giorgia Meloni, a quem qualificou como um líder forte não só em Roma, mas em Bruxelas. 'É uma das vozes mais claras em apoio à Ucrânia', afirmou, lembrando a importância do desbloqueio de 90 bilhões de assistência, um processo que depende de múltiplos atores e onde o papel de interlocutores que mantêm bom relacionamento com Washington é determinante.
Quanto às garantias de segurança, Zelensky fez perguntas essenciais: quais salvaguardas existem se a Rússia decidir avançar novamente? 'Talvez não imediatamente, mas em dois ou três anos poderia atacar outra vez. Queremos que as garantias prevejam presença europeia e dos Estados Unidos', disse, traçando o contorno de uma arquitetura de segurança coletiva com elementos permanentes — um alicerce que se pretende dissuasório.
Sobre o calendário eleitoral, o presidente foi categórico: realizar eleições agora seria ilegal e inviável do ponto de vista da segurança. 'Precisamos garantir proteção à população e aos soldados para que todos possam votar. Como fazer isso sob ataque?', questionou.
Na frente das sanções, Zelensky afirmou que há evidências de que a Rússia vendeu petróleo apesar das restrições e manifestou esperança de que os Estados Unidos reforcem suas medidas. Reconheceu também que, antes da guerra, houve erros no Donbass — 'todos cometemos erros' — mas sustentou que Vladimir Putin teria encontrado um pretexto para a invasão de qualquer forma.
Por fim, numa apreciação realista das relações com Washington, o presidente afirmou manter uma relação de trabalho com Donald Trump. 'Quem tem melhor contato com Trump do que eu? Temos boas relações porque digo o que penso. Precisamos do apoio americano não só militarmente — eles também podem tirar lições da nossa experiência de guerra', concluiu.
No conjunto, as declarações traçam um mapa de realismo estratégico: busca por negociações sem concessões territoriais automáticas, reforço do apoio militar e financeiro ocidental, e a construção de garantias coletivas que atuem como dissuasão no longo prazo. No grande tabuleiro, a jogada ucraniana é de resistência e de tentativa de redesenhar, com aliados, os alicerces frágeis da diplomacia europeia.