Quando Beppe Grillo propôs tirar parlamentares por sorteio: a proposta que volta ao debate
Em 2018 Beppe Grillo defendeu sortear parlamentares como resposta à crise de representação; proposta volta ao debate público e questiona a democracia atual.
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Quando Beppe Grillo propôs tirar parlamentares por sorteio: a proposta que volta ao debate
AGI – Em 2018, Beppe Grillo, então Garante do M5s, lançou uma ideia que desafia os alicerces tradicionais da representação: a seleção de parlamentares por sorteio. A proposta, reacendida agora por iniciativas que discutem o posicionamento em listas eleitorais, não é uma provocação recente, mas uma retomada de um plano que Grillo considerava capaz de reconstruir a democracia como mecanismo de participação direta.
Naqueles anos, o fundador do Movimento era seguido constantemente pelos cronistas em seus breves deslocamentos pela capital. Em entrevistas e declarações, Grillo defendia a criação de um ramo parlamentar composto por cidadãos escolhidos aleatoriamente. "Selezioniamo le persone a sorte e le mettiamo in Parlamento", afirmou, propondo que a seleção fosse equitativa e representativa do país. Em suas referências históricas, invocava o exemplo da Atenas antiga, onde cargos eram frequentemente atribuídos por sorteio, argumento usado para justificar o modelo como não apenas simbólico, mas funcional.
Grillo apontava que a prática poderia ser organizada com critérios: idade, gênero, região, renda — para que o corpo representasse de fato a pluralidade nacional. A ideia incluía mandatos por tempo determinado, buscando evitar o enraizamento de carreiras políticas e o domínio de lobbies. Em sua visão, o sorteio seria uma forma de limpar a arquitetura do voto das distorções atuais e derrubar barreiras burocráticas que afastam o cidadão comum da governança.
"È bellissimo. Lo fanno anche in Bulgaria", chegou a comentar, ressaltando exemplos práticos em outros países. A metáfora frequentadora do discurso de Grillo — abrir o Parlamento "come una scatoletta di tonno" — sintetizava a intenção de tornar a instituição mais acessível e menos impermeável às forças corporativas.
Na mesma linha, o então subsecretário aos Bens Culturais, Gianluca Vacca, sustentou que o crescente índice de abstenção denunciava uma fadiga democrática que não significava falta de vontade de participar. Para Vacca, o sorteio poderia oferecer um caminho para ampliar transparência e imparcialidade, transformando o desinteresse em formas diferentes — e possivelmente mais diretas — de engajamento.
Desde 2018, muita coisa mudou: Grillo já não ocupa o papel de Garante do Movimento, e aquele debate migrou por diferentes corredores institucionais. Ainda assim, a proposta de recorrer à escolha aleatória continua a ressurgir como uma ferramenta possível para lidar com a crise de representatividade. Como repórter, vejo nessa ideia um convite a pensar a construção de direitos não só como reforma normativa, mas como reengenharia das práticas de seleção de quem decide.
O sorteio, talvez, funciona como uma ponte entre a vida cotidiana dos cidadãos e a alta política: uma tentativa de aproximar o espaço de decisão às experiências reais. Caberá à sociedade ponderar se quebrar o molde tradicional da escolha política é risco ou oportunidade — e se o peso da caneta deve seguir sendo o único mecanismo a definir os destinos coletivos.