Biennale Arte 2026: juradas excluem Rússia e Israel dos prêmios por acusações da CPI

Juradas da Biennale 2026 excluem Rússia e Israel de prêmios devido a acusações da CPI; tensões entre Fundação, UE e Moscou aumentam.

Biennale Arte 2026: juradas excluem Rússia e Israel dos prêmios por acusações da CPI

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Biennale Arte 2026: juradas excluem Rússia e Israel dos prêmios por acusações da CPI

Em uma decisão sem precedentes e com impacto político direto, a comissão julgadora da 61ª Exposição Internacional de Arte da Biennale de Veneza anunciou que se absterá de considerar para os prêmios maiores — o Leão de Ouro e o Leão de Prata — os países cujos líderes estão atualmente alvos de acusações por crimes contra a humanidade na Corte Penal Internacional (CPI). A medida atinge, de forma objetiva, Rússia e Israel, ligados aos mandados de prisão internacional contra Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu.

A comissão, integralmente feminina e presidida por Solange Farkas, com as membros Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi, justificou a decisão como parte de sua responsabilidade de vincular a arte às «urgências do nosso tempo». Segundo nota oficial das juradas, a representação de um Estado-nação conecta inevitavelmente o trabalho dos artistas às ações dos governos que representam; por isso optaram por agir em defesa dos direitos humanos, em sintonia com o espírito curatorial da mostra principal "In Minor Keys".

O movimento surge também após uma carta aberta publicada semanas antes por artistas e curadores que pediam medidas ainda mais rigorosas, argumentando que existe "um limiar além do qual a participação na Biennale não deveria ser normalizada". É importante lembrar que, em 2024, houve uma decisão análoga que atingiu o primeiro‑ministro israelense em relação ao conflito na Faixa de Gaza.

A deliberação da juria, contudo, é circunscrita: não interfere diretamente na presença física dos pavilhões nacionais — sobre o pavilhão russo há tensão visível entre a Fundação e instituições europeias —, limitando‑se à elegibilidade para os prêmios centrais.

A Fondazione Biennale, presidida por Pietrangelo Buttafuoco, rebateu ressaltando a "autonomia e independência de julgamento" da comissão. A instituição afirmou que a escolha das juradas representa uma expressão natural da liberdade que a Biennale proclama, ao mesmo tempo em que reiterou sua tradição de inclusão das representações estatais reconhecidas.

O anúncio acontece num momento de alta tensão geopolítica que coloca a Biennale no olho de um conflito entre Roma, Bruxelas e Moscou. A Comissão Europeia anunciou a possibilidade de suspender um financiamento de 2 milhões de euros motivada pela reabertura do pavilhão russo; segundo o porta‑voz Thomas Regnier, os repasses estão congelados até que a Fundação apresente explicações satisfatórias.

Do lado russo, a porta‑voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, criticou duramente a União Europeia, classificando a ameaça de corte de verbas como uma regressão à "anticultura" e um sintoma de incivilidade do Ocidente. Enquanto isso, o pavilhão israelense segue sendo alvo de protestos de coletivos artísticos que denunciam uma "desigualdade estrutural" e pedem maior responsabilização.

Como correspondente comprometido com a construção de pontes entre as decisões de Roma e a vida dos cidadãos, observo que a medida das juradas é mais do que uma proclamação simbólica: é um componente da arquitetura do debate público sobre até onde se estende a responsabilidade cultural por ações estatais. A Biennale, que sempre foi um palanque internacional, vê agora seus alicerces questionados por um dilema que mistura arte, direito internacional e diplomacia.

Resta saber como esse peso da caneta — da jurada que retira um prêmio ou da instituição que responde à União Europeia — vai remodelar as relações entre os atores culturais e os governos, e se a decisão estimulará outras instâncias culturais a redefinirem seus critérios em tempos de crise.