A crise dos migrantes que não existe: os números da Frontex e a política do falso alarme
Frontex registra queda de 40% nas chegadas irregulares, mas mortes no mar aumentam. Como a política alimenta a falsa crise migratória.
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A crise dos migrantes que não existe: os números da Frontex e a política do falso alarme
Por Giuseppe Borgo — A narrativa da crise dos migrantes avança como um canteiro vazio onde se ergue um cenário de medo, embora os alicerces mostrem-se frágeis quando medidos pelos dados. Relatórios recentes da Frontex, a agência europeia de vigilância de fronteiras, mostram uma realidade que contraria o que a retórica política pretende construir: o fluxo migratório diminuiu de forma consistente, mas a percepção pública e a resposta governamental seguem marcadas pela emergência.
Nos últimos quatro anos o fluxo caiu cerca de 30%. Nos primeiros quatro meses de 2026 os recuos são ainda mais bruscos: -78% nos chegadas a partir da África Ocidental e -46% na rota do Mediterrâneo Central, resultando numa queda próxima de 40% nos arrivos irregulares em toda a Europa. Para ter uma ideia concreta, apenas 2.331 pessoas chegaram da África nesse período — um número que, repartido entre os Estados-membros, traduz-se em poucas centenas, ou mesmo dezenas, em países como a Itália. Na rota dos Balcãs, foram apenas 1.122 travessias entre janeiro e abril de 2026, uma redução de 49%.
Esses números deveriam servir de alicerce para que governos promovessem os próprios êxitos de gestão. Em vez disso, a narrativa de crise é mantida e amplificada. O paradoxo é nítido: enquanto as travessias regulares declinam, cresce o total de falecimentos no mar. Neste início de ano foram registradas 1.220 mortes por afogamento — um número que evidencia a gravidade humanitária, mas também aponta para o efeito perverso das políticas que tornam a travessia mais perigosa.
O que explica essa dissonância entre estatística e discurso público? Em grande medida, trata-se de economia política: imigração e segurança são mercadorias eleitorais valiosas para a direita. Movimentos e partidos conservadores, da campanha pela saída do Reino Unido ao sucesso de formações lepenistas e de hard-right no continente, exploram a figura do imigrante como catalisador de votos. Sem esse inimigo construído, parte significativa do capital político desapareceria.
O resultado é uma arquitetura discursiva que alimenta o medo: o migrante que “rouba” empregos, que “ameaça” a ordem pública, que representa um risco cultural e religioso. Essa construção ideológica funciona como uma ponte que liga a ansiedade social a decisões políticas mais restritivas — a pressão do peso da caneta sobre medidas que fecham rotas, endurecem controles e, inevitavelmente, empurram pessoas para caminhos mais perigosos.
Governos, mesmo diante da queda das chegadas, adotam medidas de fechamento e securitização. A Itália, por exemplo, intensificou controles e cooperação com parceiros e vizinhos, ao mesmo tempo em que usa a narrativa da emergência para justificar ações mais duras. O efeito prático é conhecido: reduz-se o número de travessias, mas aumenta-se a letalidade das rotas remanescentes.
Como repórter que observa a intersecção entre decisões de Roma e a vida de quem busca abrigo, lembro que não se trata apenas de números. Trata-se da construção de direitos e de como se monta ou desmonta uma ponte entre nações e pessoas em movimento. A política pública responsável deveria usar esses dados como base para políticas que reduzam riscos e protejam vidas, em vez de transformar a migração em instrumento de campanha.
Enquanto a retórica da urgência persiste mesmo com quedas estatísticas evidentes, a prioridade deve ser clara: combater a tragédia humana no mar, criar rotas seguras e reformar procedimentos de acolhimento — ações que edifiquem, em vez de derrubar, os alicerces do direito e da cidadania.