Ebola: a OMS declara emergência global — a epidemia como instrumento de governo
OMS declara emergência global por Ebola no Congo (130 mortes). Emergência é instrumento político; análise sobre riscos, interesses e direitos.
RESUMO ✦
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Ebola: a OMS declara emergência global — a epidemia como instrumento de governo
Giuseppe Borgo — Em meio ao foco midiático sobre o Hantavírus, ressurgiu com força a crise do Ebola. A OMS já declarou a situação como emergência global, sobretudo por conta do surto no Congo, onde foram contabilizadas cerca de 130 mortes. O anúncio reacende o debate: voltamos a ver a emergência epidêmica sendo tratada como uma técnica deliberada de governo?
A curta cronologia dos fatos é clara, mas o que interessa aqui é o padrão político. Se a atenção pública foi desviada ontem pelo Hantavírus e hoje se volta ao Ebola, permanece a forma como as crises são enquadradas. A emergência, amplificada pela máquina midiática, transforma-se num instrumento que molda comportamentos coletivos — uma ponte entre a percepção pública e decisões que reestruturam direitos e deveres.
Como já mostramos em estudo anterior intitulado "Golpe globale", a persistência de um regime de exceção contínua não é acidente: é uma técnica de governo. Quando o liberalismo convive com o viver em risco permanente — para usar a expressão de Foucault —, as emergências mudam de rosto, mas a arquitetura da gestão política permanece. A população, aterrorizada pela narrativa da catástrofe, tende a ceder espaço à emotividade e a aceitar medidas que, fora do quadro de urgência, seriam questionadas.
Neste cenário, a emergência funciona como arte de governar: com o peso da caneta que instaura restrições, com a construção de novos imperativos sanitários e com a possível legitimação de poderes extraordinários. A boa notícia, se é que se pode chamar assim, é que já atravessamos a emergência de 2020; temos, portanto, um repertório de respostas e uma espécie de "anticorpos" civis que permitem maior ceticismo em relação a narrativas de salvamento que escondem agendas políticas ou econômicas.
Também não é casual que, desde 2022, a emergência belicista tenha ocupado grande parte do palco público. Agora, a cena retorna ao campo biomédico: a alternância é visível — os capitalistas das armas e os dos farmacêuticos revezam-se no leme das prioridades. A questão real para o cidadão comum é saber quem constrói os alicerces das decisões: a proteção coletiva ou o lucro concentrado?
Não se trata de negar riscos sanitários reais — o Ebola mata e exige respostas rápidas —, mas sim de colocar em perspectiva a forma como a emergência é usada politicamente. A vigilância pública deve ser duas vezes mais aguçada: sobre o avanço do vírus e sobre as medidas emergenciais propostas como única saída.
Como correspondente interessado na interseção entre Roma e a vida dos cidadãos, proponho que observemos com rigor acessível cada passo das autoridades: quem decide, com que base científica, sob que instrumentos jurídicos e com que efeitos sociais. É papel da sociedade exigir transparência e evitar que o estado de exceção vire rotina administrativa. Em outras palavras: precisamos construir pontes sólidas entre a ciência, a política e a cidadania, derrubando barreiras burocráticas e preservando direitos.
Enquanto isso, acompanharemos os desdobramentos do surto no Congo e as reações da OMS, sem perder de vista que, em tempos de crise permanente, a democracia se faz também na capacidade de questionar a emergência.