Raul Montanari reescreve a Val di Scalve em 'I morti hanno sempre ragione' — um noir de segredos e adolescência

Raul Montanari retorna à Val di Scalve com 'I morti hanno sempre ragione', um noir sobre segredos, adolescência e a dureza da vida provincial.

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Raul Montanari reescreve a Val di Scalve em 'I morti hanno sempre ragione' — um noir de segredos e adolescência

Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. No novo romance de Raul Montanari, I morti hanno sempre ragione (Baldini+Castoldi), o autor devolve ao leitor um cenário que conhece bem: a província bergamasca transfigurada em palco de crimes, memórias e verdades veladas. Montanari, com cerca de vinte romances publicados e um histórico literário que inclui títulos como La perfezione (1994) e La vita finora (2018), volta a explorar as dinâmicas pequenas e cruéis de um vilarejo de montanha.

O protagonista é Andrea Defendi, 28 anos. A narrativa se inicia com a notícia da morte súbita dos pais, que haviam deixado Milão para viver em um pequeno povoado da Val di Scalve. Andrea recusa a versão oficial de um acidente e parte em investigação. A partir daí, a trama desdobra-se em uma sequência de descobertas que remetem ao íntimo das famílias locais, ao peso dos segredos e ao modo como a vida provincial, embora pareça mais verdadeira, é também mais implacável.

Do ponto de vista estrutural, Montanari alimenta o romance com elementos que já marcaram sua obra: um clima noir seco, diálogos precisos e personagens com contradições palpáveis. Entre eles, reaparece um nome conhecido de leitores fiéis: don Carlo, o padre de La vita finora. Aqui, don Carlo assume papel decisivo no desenrolar da investigação de Andrea, representando a figura atípica do sacerdote que escuta e convive com as contradições da juventude local.

Um núcleo narrativo singular do livro são os adolescentes — ultras da Atalanta que, ao mesmo tempo, cultivam um estranho culto satanista. Eles ocupam os bosques e um local chamado de Rifugio, com um desfiladeiro nas proximidades. Montanari trabalha a adolescência como uma fase de revelação das verdades pessoais: medos, desejos e marcas que acompanharão os personagens pela vida. Estes jovens são, ao mesmo tempo, vítimas e agentes de uma dinâmica comunitária que os abandona.

O romance equilibra momentos de tensão e horror com passagens de humor seco, sempre pela ótica irônica de Andrea. Essa escolha de tom evita a escalada sensacionalista e mantém a narrativa ancorada nos fatos brutos. A escrita de Montanari privilegia a clareza: não há invenção de mistério para efeito, mas uma desmontagem metódica das aparências.

Reforçando a crença do autor na especificidade da vida provincial, ele afirma que em um lugar pequeno é difícil esconder um segredo. Essa máxima orienta a investigação de Andrea, que descobrirá que a casa onde os pais morreram guarda aspetos sombrios e que, por vezes, a verdade exige alianças — não se combate o mal sozinho. Don Carlo é a figura que simboliza essa necessidade de ter alguém ao lado.

Sem spoilers do desfecho, cabe registrar que o final é construído para surpreender: a vida, escreve Montanari, toma pessoas, lugares e afetos, fazendo crer que tudo permanecerá imutável. Na prática jornalística, esse romance funciona como um raio-x do cotidiano provincial italiano: uma cartografia de segredos, fidelidades e rupturas, apresentada com rigor investigativo e economia estilística.

Em síntese, I morti hanno sempre ragione é um noir que confirma Raul Montanari como um narrador atento às contradições entre cidade e província, ao peso das memórias e ao papel da comunidade na preservação — ou destruição — da verdade.