Emicrania em crianças: 1 em 10 sofre e faltam medicamentos testados para a idade pediátrica
Emicrania em crianças: prevalência alta, tratamentos eficazes existem para adultos, mas faltam testes e diretrizes pediátricas. Impacto no rendimento escolar.
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Emicrania em crianças: 1 em 10 sofre e faltam medicamentos testados para a idade pediátrica
Por Giulliano Martini — A volta às aulas expõe um problema de saúde pública pouco visível: a alta prevalência de emicrania entre alunos e a ausência de medicamentos especificamente testados para crianças e adolescentes. É o diagnóstico técnico da Sociedade Italiana para o Estudo das Cefaleias (Sisc), com base em estudos nacionais e internacionais e no cruzamento de dados clínicos.
Segundo análises internacionais, mais de um em cada dez jovens apresenta quadro de emicrania. Estudos italianos apontam prevalência menor — cerca de 1 em 20 aos 10 anos —, mas mesmo esse número corresponde a pelo menos um aluno por sala. Um levantamento do IRCCS materno-infantile Burlo Garofolo, publicado em janeiro de 2023, estimou prevalência de 5% em crianças aos 10 anos; uma metanálise do mesmo ano, no The Journal of Headache and Pain, situou o índice em mais de 10% globalmente. A extrapolação desses dados indica, na Itália, cifras da ordem de 160 mil crianças e 500 mil adolescentes afetados.
A Sisc alerta que, apesar da disponibilidade, para adultos, de um arsenal terapêutico eficaz — incluindo gepants, anticorpos monoclonais de administração sistêmica e a toxina botulínica como tratamento local — esses recursos não contam com ensaios clínicos pediátricos suficientes. “Não podemos empregá-los com a mesma segurança que em adultos porque faltam pesquisas específicas e diretrizes claras sobre doses e uso”, afirmou a professora Marina De Tommaso, presidente da Sisc.
Na prática clínica, isso significa que especialistas são forçados a prescrever medicamentos em regime off-label — fora das indicações oficiais — com reservas técnicas e cautela ampliada. O resultado relatado pela Sisc é duplo: terapias subutilizadas e crianças que sofrem desnecessariamente; e impactos objetivos no rendimento escolar e frequências à escola.
Dados colhidos e cruzados pela Sociedade indicam queda média de até 30% no desempenho acadêmico entre alunos com emicrania, além de ausências que podem ocorrer várias vezes ao mês. O começo do ano letivo e o retorno após férias estão entre os períodos de maior risco, por alterações de rotina, sono e níveis de estresse — fatores que precipitam crises em indivíduos predispostos.
Além do quadro clínico, há uma questão regulatória: sem ensaios pediátricos bem delineados, não há orientações de dosagem e segurança que permitam a adoção plena das opções terapêuticas já validadas em adultos. A consequência direta, segundo a Sisc, é uma lacuna entre o que a ciência terapêutica oferece e o que é aplicado na prática diária pediátrica.
Do ponto de vista de saúde pública e de políticas clínicas, a recomendação clara dos especialistas é avançar com estudos controlados em faixas etárias pediátricas e elaborar diretrizes para a prescrição segura. Enquanto isso não ocorre, médicos devem continuar a prática cuidadosa de prescrever medicamentos off-label quando o benefício estiver justificado, acompanhados de monitoramento rigoroso.
Esta reportagem se baseia em apuração e no posicionamento oficial da Sisc, complementada pelo levantamento de literatura científica recente e pelo cruzamento de dados institucionais. A realidade traduzida é esta: a emicrania na infância é frequente, penaliza o rendimento escolar e carece de respostas terapêuticas claras e testadas para a população pediátrica.

