Inflação é só o começo, alerta Sapelli: governo tem pouco espaço e Eni pode aliviar preços dos combustíveis
Sapelli alerta: alta da inflação é apenas o início; governo tem margens limitadas e Eni pode usar integração para conter preços dos combustíveis.
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Inflação é só o começo, alerta Sapelli: governo tem pouco espaço e Eni pode aliviar preços dos combustíveis
Inflação, geopolítica e decisões corporativas. Em entrevista à Espresso Italia, o economista Giulio Sapelli avaliou o salto recente dos preços — +0,7% em setembro e +4,2% em doze meses, segundo o Istat — e advertiu que este pode ser apenas o início, caso os conflitos em curso não se resolvam.
Na análise de Sapelli, o aumento é fortemente condicionado pela situação nos principais corredores do comércio marítimo. "Se a situação no Estreito de Hormuz e no de Bab el-Mandeb não se resolver positivamente, poderemos esperar apenas outros aumentos, inclusive nos bens agrícolas e em tudo o que é transportado", disse o economista. O diagnóstico é direto: parte dos problemas deriva do bloqueio das "artérias jugulares" do comércio mundial.
Quanto à capacidade de resposta do poder público italiano, Sapelli ressalta limitações importantes. "O governo pode fazer bem pouco, tem poucos margens de manobra para intervir", afirmou. Para ele, diante de choques dessa natureza, seria necessário dispor de reservas e de política fiscal preventiva — reduzir gastos antecipadamente e agir para impedir elevações excessivas das taxas de juros — medidas que, segundo o economista, deveriam ter sido tomadas antes.
O comentário alcança também o âmbito europeu. Sapelli criticou a atuação da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde: "Muito depende de Lagarde, que não sabe nada de economia, mas que está à frente do BCE e agora faz de tudo para se afastar, criando um grande problema para se candidatar às eleições francesas". Trata-se da leitura do entrevistado sobre o comportamento da autoridade monetária em contexto de pressão inflacionária e tensões políticas.
Em relação a movimentos do setor privado, Sapelli avaliou a ação anunciada pela Eni sobre os combustíveis. A possibilidade de impor um price cap operacional pela própria empresa, segundo ele, é coerente com a natureza da companhia. "A Eni pode agir com price cap porque é uma companhia integrada. Opera da perfuração à refinação, e o que importa para o consumidor não é o petróleo bruto, mas a gasolina e o gasóleo". Na prática, afirma Sapelli, a integração permite diluir compromissos ao longo de toda a cadeia, reduzindo o impacto final sobre o consumidor.
O economista rebateu críticas que, segundo ele, não consideram essa característica: "Li opiniões não de economistas, mas de amadores, que dizem que acionistas e até o Tesouro seriam prejudicados. Pelo contrário: acionistas e Tesouro podem ser beneficiados por essa ação — é uma resposta de responsabilidade social corporativa". Para Sapelli, a medida pretende aliviar o peso sobre os consumidores e ao mesmo tempo preservar a posição de mercado da empresa.
Por fim, Sapelli apontou a necessidade estrutural de uma virada na capacidade industrial de refino na Itália. "É preciso sobretudo criar novos impianti de refinação no país", defendeu. Ele elogiou iniciativas da própria Eni, citando a transformação do complexo de Gela, parte convertido para biofuel, como exemplo de adaptação tecnológica e manutenção de capacidade produtiva.
Conclusão técnica: o cenário descrito por Sapelli une choques externos (guerra e logística marítima), restrições de política econômica e decisões empresariais com efeitos imediatos no bolso do consumidor. A solução, segundo o economista, passa por ações coordenadas, reservas estratégicas e um esforço de recuperação da cadeia industrial de refino na Itália — medidas que não se resolvem apenas com decretos de curto prazo.
Giulliano Martini — apuração in loco e cruzamento de fontes, Espresso Italia.

