Lorusso (Universidade de Bolonha): a emergência é a confusão entre realidade e representação

Lorusso alerta: a emergência atual é a confusão entre realidade e representação, ampliada pela inteligência artificial e perigosa para a democracia.

Lorusso (Universidade de Bolonha): a emergência é a confusão entre realidade e representação

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Lorusso (Universidade de Bolonha): a emergência é a confusão entre realidade e representação

Apuração in loco — Em intervenção no ciclo "Informação e democracia - Le sfide nell’era della post-verità", realizado na Embaixada da França em Roma, a professora Anna Maria Lorusso, titular de Filosofia e Teoria das Linguagens na Universidade de Bolonha, advertiu sobre uma mudança estrutural no campo informativo: a perda da capacidade de distinguir entre realidade e representação.

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Segundo Lorusso, a chegada generalizada da inteligência artificial altera a configuração do que consideramos verdadeiro. "Um dos problemas hoje é que não somos mais capazes de distinguir o que é verdadeiro do que é falso, ou melhor, o que é real daquilo que é criado artificialmente ou simplesmente modificado digitalmente", afirmou a pesquisadora. A constatação atinge tanto imagens — onde a manipulação é mais visível — quanto textos, cada vez mais produzidos ou remodelados por algoritmos.

O diagnóstico apresentado tem caráter epistemológico: quando perdemos a competência discriminatória, estamos sujeitos a um novo regime, no qual o estatuto da verdade se torna incerto. "É verdadeiro aquilo que corresponde aos fatos ou é verdadeiro apenas aquilo em que eu acredito?", questionou Lorusso. Para a professora, o nó central não é apenas a desinformação em si, mas a confusão — a incapacidade coletiva de traçar fronteiras entre o acontecido e sua representação.

A fala ocorreu no âmbito de um debate promovido pela Embaixada da França na Itália em parceria com o Institut français Italia, cujo objetivo é mapear as transformações do sistema informativo e suas implicações para o debate democrático. O encontro reuniu especialistas interessados em compreender como processos tecnológicos e práticas comunicativas reconfiguram confiança, autoridade e responsabilidade no espaço público.

Do ponto de vista prático, a intervenção de Lorusso destaca uma prioridade: além de identificar conteúdos falsos, é preciso restabelecer critérios robustos para distinguir o que é testemunho factual do que é construção simbólica ou técnica. A inteligência artificial, observa a pesquisadora, funciona como multiplicador dessa condição de opacidade, tornando mais difícil identificar autoria, método e veracidade.

Em termos de impacto democrático, a perda dessa capacidade de distinção fragiliza mecanismos de responsabilização e deliber ação pública. Quando a representação passa a competir com a realidade em pé de igualdade, decisões públicas e escolhas eleitorais podem ser baseadas em narrativas que não correspondem aos fatos brutos.

Trata-se, nas palavras de Lorusso, de uma emergência conceitual: não apenas um problema técnico de moderação de conteúdo, mas uma crise na forma como sociedade e instituições reconhecem e validam a verdade. O debate promovido pela Embaixada e pelo Institut français busca precisamente equacionar essas questões, reunindo interrogantes teóricos e propostas práticas para enfrentar o desafio.

Raio-x do cotidiano: a mensagem é clara e técnica — sem restauração dessa habilidade de distinção, a proteção da democracia e da esfera pública permanece vulnerável diante das tecnologias que aceleram a produção e a circulação de representações indistinguíveis da realidade.

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