Pontormo em Roma: 130 obras reconstroem o gênio das Scuderie del Quirinale
Exposição Pontormo nas Scuderie del Quirinale reúne 130 obras e o manuscrito 'Libro mio' em parceria com os Uffizi. Imperdível em Roma, 9/10 a 7/2/2027.
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Pontormo em Roma: 130 obras reconstroem o gênio das Scuderie del Quirinale
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que é ao mesmo tempo curatorial e cultural, a exposição Pontormo transforma as Scuderie del Quirinale num palco para a plena leitura do talento de Jacopo da Pontormo. A mostra, em cartaz de 9 de outubro a 7 de fevereiro de 2027, reúne 130 capolavori distribuídos em dez seções que desenham um percurso elegante e íntimo pela criatividade de um dos nomes centrais do Cinquecento florentino.
É notável — e simbólico — que esta seja a primeira monográfica dedicada ao pintor apresentada fora de Florença. Resultado de uma parceria institucional vigorosa entre a promotora Ales — Scuderie del Quirinale e as Gallerie degli Uffizi, a mostra foi produzida em conjunto com a editora Electa e curada por Cristina Acidini. O conjunto exposto inclui 84 obras entre pinturas e afrescos, uma seleção criteriosa de desenhos e o manuscrito do "Libro mio", o diário final do artista: peças que, juntas, oferecem o que poderíamos chamar de um roteiro documental e sensorial do ofício e da sensibilidade de Pontormo.
Durante a apresentação, Matteo Lafranconi, diretor das Scuderie del Quirinale, definiu a operação como uma verdadeira prova de difícil logística: "é a primeira vez que apresentamos uma monográfica que conte Pontormo em sua totalidade. Não era uma tarefa simples: reunir obras de naturezas e formatos tão diversos, de patrimônios variados — inclusive eclesiásticos — pediu empenho e convicção". Essa convicção foi viabilizada, segundo Lafranconi, pela colaboração com as Gallerie degli Uffizi, que garantiram um grande número de empréstimos e ajudaram a persuadir outros colecionadores e instituições a participar.
O diretor dos Uffizi, Simone Verde, comentou com leveza sobre o esforço envolvido: "Disseram-me que os Uffizi foram muito generosos. É verdade: os Uffizi foram praticamente saqueados. Mas essa generosidade é também uma obrigação institucional e científica, dada a relevância deste projeto". A parceria entre grandes instituições é apresentada aqui como um modelo de sinergia que abre caminhos para futuras trocas — inclusive com possibilidades de empréstimos à National Gallery de Londres e aos museus de Washington.
Fabio Tagliaferri, presidente e CEO da Ales S.p.A., ressaltou o valor do modelo público-privado que sustentou a empreitada: "É uma prática que em outros contextos da Itália encontra resistência, mas aqui, nas Scuderie del Quirinale, consolidou-se como uma prática saudável". Tagliaferri aposta ainda no sucesso de público, indicando que a exposição pode seguir a trilha de bilheteria de projetos anteriores como os "Tesori dei Faraoni".
Para quem entra nesse circuito expositivo, a experiência propõe mais que uma sequência de obras: funciona como um espelho do nosso tempo, onde o gesto pictórico de Pontormo reverbera como um roteiro oculto da sociedade renascentista e, por extensão, questiona nossa relação contemporânea com a imagem, a memória e a devoção estética. Caminhar pelas dez seções é, portanto, tanto um estudo histórico quanto um convite a ler as camadas simbólicas que moldaram — e continuam a moldar — o imaginário europeu.
Em suma, a exposição Pontormo nas Scuderie del Quirinale representa uma rara convergência de pesquisa, diplomacia museológica e potência cultural. É uma oportunidade para reencontrar um artista que, em seu tempo, reescreveu a gramática do afeto pictórico — e que hoje nos convida a reinterpretar, em plano aberto, os contornos do clássico e do contemporâneo.

