Democracia Energética: como as Comunidades Renováveis e a Amazônia podem redefinir o motor da economia

No Festival da Economia Civil, debate sobre como Comunidades Energéticas e ações na Amazônia impulsionam a democracia energética e a economia local.

Democracia Energética: como as Comunidades Renováveis e a Amazônia podem redefinir o motor da economia

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Democracia Energética: como as Comunidades Renováveis e a Amazônia podem redefinir o motor da economia

Por Stella Ferrari — No terceiro dia do Festival Nacional da Economia Civil em Florença, que chega à sua oitava edição, a tarde foi dedicada à discussão sobre democracia energética. O painel apresentou a pesquisa sobre o impacto das Comunidades Energéticas Renováveis (CER), realizada em articulação com o think tank das CERIS e o Observatório Nacional sobre a Nova Economia Social e Civil. O levantamento mapeou 351 CER, incluindo iniciativas solidárias e de impacto social, e ofereceu insights pragmáticos sobre onde e como essas experiências prosperam.

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A pesquisa mostra que as Comunidades Energéticas Renováveis se desenvolvem sobretudo em contextos com redes associativas e institucionais robustas. Os modelos mais eficazes são participativos e multistakeholder, capazes de gerar economia local, redução de custos energéticos, mitigação da pobreza e fortalecimento do capital social. No entanto, permanecem pouco visíveis: o índice NESC de conhecimento sobre as CER registou apenas 0,32 em 1, o menor valor da amostra. Como proposta concreta, o estudo defende o reconhecimento das CER como sujeitos econômicos formais, com acesso facilitado a recursos, mecanismos de transparência e responsabilidade (accountability).

Mario Mantovani, ambientalista e Presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, trouxe uma intervenção que conectou a discussão europeia com realidades globais ao citar a Amazônia como exemplo de democracia energética ausente. Segundo Mantovani, na Amazônia vivem cerca de 20 milhões de pessoas: entre 2 e 4 milhões nas principais cidades, e a maioria residindo na floresta. "Essas comunidades têm o direito de acesso à energia — é uma questão de democracia", afirmou.

O plano prático apresentado por Mantovani inclui levar painéis solares, conectividade de internet e ferramentas essenciais para integrar populações locais à economia moderna. O objetivo não é apenas eletrificar, mas construir cadeias de valor locais: apoiar a agregação e certificação de produtos da floresta — como castanha-do-brasil e matérias-primas para cosméticos — para que as comunidades conheçam o valor real de seus bens no mercado internacional e não sejam exploradas por compradores que impõem preços mínimos.

Essa visão busca operar no nível da calibragem institucional: não basta implantar tecnologia; é preciso desenhar uma filiera econômica completa que promova desenvolvimento sustentável e autonomia. É uma analogia direta com engenharia de alto desempenho: o sistema só funciona se cada componente — tecnologia, acesso, certificação e governança — estiver calibrado.

Complementando a análise, Nicola Armaroli, dirigente de pesquisa do CNR e divulgador científico, enfatizou que cerca de 90% das tecnologias necessárias para a transição energética já existem. Esperar por soluções espectaculares — fusão ou captura e armazenamento de carbono (CCS) — tem sido um pretexto para adiar ações concretas. Armaroli destacou um dado italiano elucidativo: há 300 GW de pedidos de conexão à rede na Terna para renováveis, frente a uma potência de pico de 45–50 GW; realizar apenas um décimo disso já seria um avanço substancial. O desafio principal é cultural: a transição depende de pessoas — inclusive de profissionais como eletricistas — mais do que de milagres tecnológicos.

O painel também abriu espaço para a discussão sobre quem corre o risco de ficar para trás na mudança estrutural do mercado habitacional e energético, com contribuições de representantes de cooperações e iniciativas sociais. A mensagem estratégica é clara: para acelerar a implantação das Comunidades Energéticas Renováveis e garantir democracia energética, é preciso combinar tecnologia disponível, políticas de reconhecimento jurídico, financiamento direcionado e formação de capacidades locais.

Como estrategista econômica, avalio que essa combinação é o verdadeiro motor que pode impulsionar uma aceleração responsável da transição — uma integração entre design de políticas e execução técnica, tal como a sintonia fina de um motor de alto desempenho. Sem essa sintonia, corremos o risco de ter potência instalada sem tração social.

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