Fatima Zahara Mansouri: a primeira mulher a liderar o governo do Marrocos
Fatima Zahara Mansouri é a primeira mulher a receber o mandato para formar o governo do Marrocos; desafio: formar coalizão e preparar 2030.
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Fatima Zahara Mansouri: a primeira mulher a liderar o governo do Marrocos
Uma nomeação que representa um movimento decisivo no tabuleiro político do Norte da África. O rei Mohammed VI confiou a Fatima Zahara Mansouri o mandato para formar o novo governo do Marrocos, tornando-a a primeira mulher a ocupar a chefia do Executivo na história do Reino.
Advogada de 50 anos, com formação entre o Marrocos, a França e os Estados Unidos, Mansouri acumulou experiência pública como ministra do Urbanismo e, sobretudo, como prefeita de Marrakech, cargo que ocupou pela primeira vez em 2009 — tornando-se então a primeira mulher a presidir a cidade — e para o qual foi reeleita em 2021. Figurada entre as jovens líderes africanas pela Forbes, ela é também uma das fundadoras do Partido da Autenticidade e da Modernidade (PAM), força vitoriosa nas eleições de 23 de setembro.
A indicação foi formalizada após audiência no Palácio Real, onde o monarca lhe outorgou o encargo de montar uma coalizão. Observadores interpretam a escolha como um gesto calculado da coroa: um sinal de modernização simbólica, porém integrado aos alicerces institucionais que apoiam a monarquia. Em anos recentes, outras nomeações femininas de relevo — como a de Samira Sitaïl como embaixadora do Marrocos na França — vinham pavimentando essa trajetória.
O desafio, contudo, é de alta complexidade estratégica. O PAM elegeu 97 deputados, um número insuficiente para governar sozinho. Cabe a Mansouri articular um arranjo de coalizão capaz de garantir uma maioria estável no Parlamento, diante de uma paisagem política marcada por elevada abstenção e por demandas sociais e econômicas persistentes.
Entre as prioridades que irão compor o roteiro do novo Executivo, destacam-se a retomada do crescimento econômico, a ampliação da participação política e a consolidação de políticas públicas que reduzam desigualdades. Há também um elemento de imagem externa e de infraestrutura que assume caráter estratégico: a preparação do país para a Copa do Mundo de 2030, coorganizada com Espanha e Portugal. Para a diplomacia econômica do Marrocos, esse evento configura uma oportunidade para redesenhar, de modo visível, as fronteiras de sua projeção internacional.
Como analista, pondero que a nomeação de Fatima Zahara Mansouri é simultaneamente um movimento simbólico e um cálculo realista no jogo das influências. A nova primeira‑ministra terá de construir pontes institucionais e formar uma coalizão heterogênea sem comprometer os vetores de estabilidade exigidos pela monarquia — uma tarefa que lembra a exigência de posicionamento preciso de uma peça chave num tabuleiro de xadrez, onde um passo em falso pode desorganizar toda a estratégia.
O êxito de Mansouri dependerá da sua habilidade em traduzir capital político simbólico em alianças duráveis, e em transformar a visibilidade internacional do Marrocos — potencialmente ampliada pelo Mundial de 2030 — em ganhos concretos para o desenvolvimento interno. A tectônica do poder no Reino encontra-se, assim, em mutação: alicerces frágeis da diplomacia interna devem ser reforçados para sustentar esse novo capítulo.
Em termos práticos, os próximos meses serão o verdadeiro teste: negociações de coalizão, definição de prioridades orçamentárias e um calendário de reformas que determinarão se esta nomeação será apenas um gesto simbólico ou o início de um redesenho duradouro das relações de poder no Marrocos.

