G7 em Paris mira resultados concretos, mas participação dos EUA permanece incógnita
G7 em Paris busca resultados concretos e coordenação entre aliados; presença dos EUA e postura de Marco Rubio lançam incógnitas estratégicas.
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G7 em Paris mira resultados concretos, mas participação dos EUA permanece incógnita
Por Marco Severini — Paris prepara um G7 de ministros dos Negócios Estrangeiros concebido para produzir resultados tangíveis já na esfera ministerial e para reforçar o alinhamento entre aliados frente à nova tectônica de poder global. A presidência francesa optou por uma abordagem de “obra arquitetônica”: sessões estruturadas em torno de prioridades estratégicas, buscando transformar declarações em instrumentos operacionais.
O encontro acontece simbolicamente na Abbaye de Vaux-de-Cernay, lugar com laços históricos ao nascimento do fórum, e foi organizado em seis sessões de trabalho. Três serão ampliadas, com a participação — além dos membros do G7 — de parceiros como Arábia Saudita, Coreia do Sul, Brasil e Índia, além do ministro das Relações Exteriores da Ucrânia e da presidente da EBRD (Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento). As demais três sessões permanecerão reservadas aos países do G7, onde se espera uma coordenação mais estrita.
O principal nó político reside na participação americana. Está confirmada a presença de Marco Rubio à delegação dos EUA, mas permanece a incerteza sobre os objetivos que Washington trará para a mesa após as recentes tensões derivadas do episódio no Estreito de Ormuz. Será este o primeiro encontro direto entre os aliados europeus (e o Canadá) desde o pedido público do presidente norte-americano por ações militares para preservar a liberdade de navegação — uma chamada que deixou fragilidades nos alicerces da diplomacia transatlântica.
No campo das prioridades diplomáticas, Paris quer colocar no centro o coordenamento por segurança e paz, com atenção especial à Ucrânia e ao Médio Oriente. Do lado ucraniano, a presidência francesa articulou uma estratégia tripla: manter Kyiv no epicentro da agenda internacional; reforçar o apoio concreto, sobretudo em energia e infraestruturas; e continuar a exercer pressão sobre a Rússia com vistas a um possível acordo de paz. A participação americana é considerada crucial para alinhar trajetórias entre os aliados.
Além das crises tradicionais, a presidência francesa quer integrar ao debate ameaças “horizontais” que corroem a soberania dos Estados: tráfico ilícito, segurança marítima e cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas. Será lançada uma task force contra o narcotráfico, iniciativa que já vinha sendo antecipada em fóruns europeus e que prevê uma rede de hubs portuários e maior cooperação operacional, em parceria com a Itália. Está também prevista uma conferência regional nas Caraíbas (Martinica, julho de 2026) para abordar riscos específicos ao hemisfério.
Num tom institucional, haverá atenção à reforma da governança global das operações de paz. Paris propõe a criação de um comitê de coordenação que reúna contribuintes financeiros e militares para avaliar e tornar as missões de peacekeeping mais eficientes e sustentáveis. No plano humanitário, o objetivo declarado é racionalizar a logística e reduzir custos operacionais, transformando a cadeia de assistência em um mecanismo mais resistente e responsivo.
Em suma, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: Paris busca consolidar alicerces práticos e estruturas cooperativas para que o G7 não seja apenas uma assembléia de intenções, mas um mecanismo capaz de moldar respostas concretas às crises e às novas ameaças à soberania dos Estados. A incógnita americana, por sua vez, permanecerá o teste mais imediato da capacidade do bloco de transformar estratégia em ação coordenada.