Mundo está despreparado para nova pandemia, alerta Comissão NUS-Lancet Prime
Relatório da Comissão NUS-Lancet alerta: o mundo permanece despreparado para nova pandemia; é urgente mudança de estratégia e cooperação internacional.
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Mundo está despreparado para nova pandemia, alerta Comissão NUS-Lancet Prime
Por Marco Severini — Em uma avaliação que deveria funcionar como um diagnóstico geoestratégico, a Comissão NUS-Lancet Prime lançou um alerta duro: o mundo está despreparado para a próxima pandemia. Publicado em 21 de setembro, por ocasião da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas e como prelúdio à Reunião de alto nível sobre prevenção, preparação e resposta às pandemias, o relatório desenha um quadro inequívoco: a sombra do Covid-19 está se dissipando da memória coletiva, enquanto os riscos pandêmicos crescem.
Os autores lembram que a crise provocada pelo Covid-19 produziu mais de 7 milhões de mortes confirmadas e uma estimativa de cerca de 28 milhões de óbitos em excesso — números que deixaram marcas profundas na saúde pública, nas economias e na estrutura social global. Mais do que estatísticas, esses dados expõem lacunas institucionais e operacionais: sistemas de vigilância frágeis, estoques mal geridos, cadeia de fornecimento vulnerável, e, sobretudo, uma visão de preparação demasiadamente técnica e curta no alcance.
A Comissão Prime propõe uma mudança de eixo estratégico: transitar da mera preparação técnica para um conceito mais abrangente de readiness — prontidão que articula proteção social, financiamento sustentável, marco regulatório robusto, educação, políticas laborais, segurança alimentar e governança ambiental. Em termos de arquitetura política, trata-se de reconstruir alicerces que suportem não apenas a resposta imediata, mas a resiliência socioeconômica das populações, sobretudo as mais vulneráveis.
O relatório enfatiza, com clareza cartesiana, que a proteção deve ser centrada nas pessoas. Em linguagem prática: políticas desenhadas a partir das necessidades de indivíduos e comunidades, instrumentos para que as pessoas possam se proteger, acessar cuidados, preservar meios de subsistência, participar das decisões e recuperar-se após a crise. É um chamado a deslocar o foco técnico para um movimento humano e inclusivo — um movimento que redesenhe as fronteiras invisíveis entre saúde pública e políticas sociais.
O especialista Gabriele Bassetti sintetizou o espírito do documento ao afirmar: “Estamos pesadamente impreparados para uma nova pandemia, é preciso acabar com improvisações”. Essa palavra — improviso — serve como rétega: não se reforma segurança global com remendos e reencenações emergenciais. Requer-se estratégia sustentada, financiamento previsível e cooperação entre Estados.
Entre as mensagens centrais está a urgência da cooperação internacional. Exercícios de modelagem, conduzidos pela Comissão, mostram que a coordenação entre governos pode salvar milhões de vidas em cenários hipotéticos, como uma nova onda de gripe A. Em termos de diplomacia da saúde, trata-se de um movimento no tabuleiro que privilegia alianças estáveis e mecanismos de partilha de recursos e tecnologias.
Enquanto as lições do Covid-19 esmaecem na memória pública, o relatório é um apelo à prudência: a tectônica do poder global continua a moldar vulnerabilidades e a aumentar o custo humano de surpresas sanitárias. Do ponto de vista estratégico, não basta reagir; é necessário construir defesas duradouras, com base em instituições resilientes, participação comunitária e governança integrada.
Em última análise, a proposta da Comissão NUS-Lancet Prime é um convite a repensar o jogo — a antecipar movimentos, a fortificar peões sociais e a proteger o rei que representa a vida coletiva. Ignorar esse chamado é aceitar que o próximo choque venha sem um plano de xadrez.

