Fazzolari critica reabertura do pavilhão russo na Biennale: 'um pastrocchio inútil'
Fazzolari critica reabertura do pavilhão russo na Biennale: chama de 'pastrocchio' e aponta manobra para contornar sanções e excluir dissidentes russos.
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Fazzolari critica reabertura do pavilhão russo na Biennale: 'um pastrocchio inútil'
Por Giuseppe Borgo — A reabertura do pavilhão russo na Biennale de Veneza voltou a colocar em tensão a ponte entre a vida cultural e as decisões políticas. Em contato telefônico com a AGI, o subsecretário à presidência do Conselho, Giovanbattista Fazzolari, afirmou que a fundação da Biennale dispõe de ampla autonomia, mas destacou que a escolha de reabrir o pavilhão russo foi tomada de forma independente, contrariando o posicionamento do governo italiano manifestado pelo ministro da Cultura.
Fazzolari qualificou a decisão como "um pastrocchio inútil" e apontou contradições práticas que sustentam essa avaliação: segundo ele, durante os dias em que o evento estará aberto ao público, o pavilhão russo permanecerá fechado, com exibições reduzidas apenas a filmes visíveis do lado de fora. Para o subsecretário, tudo indica que se trata de um expediente da fundação para contornar as sanções contra a Rússia e a incapacidade concreta de abrir o espaço na forma tradicional.
Essa leitura política não é apenas retórica institucional. Fazzolari recordou que a controvérsia já suscitou uma reação formal de 22 governos europeus e da Comissão Europeia, além de protestos de muitos cidadãos e de numerosos dissidentes russos. Esses críticos apontam que, na mostra, estarão representados sobretudo artistas alinhados ao Kremlin — uma escolha que, segundo os dissidentes, exclui muitos criadores russos que hoje estão presos em cadeias de Moscou.
"A Biennale poderia ter poupado essas polêmicas", concluiu o subsecretário, ressaltando que a missão institucional do evento é cuidar de arte e cultura, não de manobras que impliquem contornos diplomáticos ou jurídicos. A declaração aponta para uma disputa sobre os alicerces da autonomia cultural: até que ponto uma fundação cultural pode, com suas decisões, afetar a arquitetura das relações internacionais e o respeito às medidas adotadas por governos?
Como correspondente que observa a intersecção entre Roma e a vida dos cidadãos — especialmente imigrantes e ítalo-descendentes — vejo nessa questão elementos de construção de direitos e responsabilidades. A arte não opera em vácuo; é parte da cidadania. Quando instituições culturais tomam decisões que ressoam além das galerias, elas participam da construção de um espaço público compartilhado. Derrubar barreiras burocráticas não significa ignorar o peso da caneta que sela sanções ou decisões diplomáticas.
O episódio também levanta uma questão prática: qual o efeito real de manter um pavilhão "aberto" apenas na fachada? Se a intenção foi criar uma solução técnica para driblar limites legais ou políticos, isso reduz a transparência e fragiliza a confiança pública na capacidade das instituições de gerir eventos culturais com responsabilidade ética e geopolítica.
Em suma, a controvérsia sobre o pavilhão russo na Biennale é muito mais do que um embate estético; é um teste sobre os alicerces da governança cultural e sobre como as decisões de instituições influenciam os direitos e a voz daqueles que, na Rússia e fora dela, lutam por liberdade e por reconhecimento.