Schlein acusa governo de 'prova muscular' sobre a Constituição e alerta risco à independência da magistratura
Schlein critica governo por blindar reforma constitucional que, diz, enfraquece a independência da magistratura e não resolve problemas práticos da justiça.
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Schlein acusa governo de 'prova muscular' sobre a Constituição e alerta risco à independência da magistratura
Em entrevista à revista Rinascita, a secretária do Partido Democrático, Elly Schlein, definiu como uma verdadeira prova muscular do governo de direita a proposta de reforma em votação e o subsequente referendo sobre a justiça. Para Schlein, a manobra buscou blindar uma mudança constitucional sem aceitar sequer retoques parlamentares, em um procedimento inédito e perigoso para os alicerces do Estado de Direito.
"O governo de direita quis fazer uma prova muscolare sobre a Costituzione. No Parlamento, nós denunciamos erros macroscópicos, contradições e lacunas de uma reforma errada e danosa", afirmou a dirigente do PD. Segundo ela, a proposta saiu do Legislativo exatamente como entrou: intocada, sem alterações vindas das oposições ou mesmo de parlamentares da maioria. "Isso nunca havia ocorrido na história da República; é um método grave e inaceitável".
A reforma prevê a alteração de sete artigos da Constituição e a ab-rogação de dois dispositivos em um único movimento. Schlein alerta que se trata de um golpe à independência da magistratura, princípio que, segundo ela, não protege apenas os juízes, mas resguarda todos os cidadãos.
Na sua avaliação, a iniciativa não é uma verdadeira reforma da justiça porque não enfrenta os problemas concretos: "Não acelera os processos, não amplia o quadro de pessoal que falta, não estabiliza os 12.000 precários da justiça que o governo pode deixar sem emprego a partir de junho". Ainda segundo Schlein, a proposta não amplia o uso de medidas alternativas à prisão nem combate o grave problema do superlotação carcerária, que atingiu picos de 138,5% e vem acompanhado por índices preocupantes de suicídios entre detentos e agentes penitenciários. "Nem mesmo o ministro Nordio nega que a reforma não melhora a eficiência da justiça para os cidadãos", ela acrescentou.
Schlein também criticou a alteração prevista na separação das carreiras: a reforma Cartabia permitiria que juízes se tornassem membros do Ministério Público (e vice-versa) apenas uma vez na carreira, nos primeiros dez anos e com mudança de distrito — uma norma que, na prática, acometeria entre 20 e 40 magistrados por ano, dentre mais de 9.000. "Não se muda a Constituição por causa do destino de 40 pessoas ao ano", disse.
Ela lembrou que já houve intervenções legislativas pontuais e oportunas, como a incompatibilidade que impede que membros do CSM (Consiglio Superiore della Magistratura) responsáveis pela disciplina atuem também nas nomeações. "Se o objetivo fosse reforçar a separação das carreiras, poderia ter sido feita uma lei específica — por exemplo, concursar separadamente. Está claro que o objetivo é outro: fragmentar o CSM em três para minar a independência da magistratura".
Outro ponto crítico, na leitura de Schlein, é a introdução do sorteio para a escolha de componentes de um órgão constitucional tão relevante. "O sorteio para compor um órgão de relevância constitucional não existe em nenhum outro país do mundo. Hoje, o CSM é eletivo e autoritativo; amanhã, seria escolhido por sorteio e ficaria mais fraco. Isso lesaria o princípio da separação dos poderes, um fundamento democrático que protege os cidadãos. Quem de nós confiaria uma responsabilidade delicada ao acaso? Seria abdicar da tarefa — e da responsabilidade — de selecionar as pessoas mais competentes para exercer funções elevadas".
Como repórter atento à arquitetura do voto e à construção de direitos, considero que a discussão ultrapassa disputas partidárias: trata-se de preservar mecanismos que asseguram representatividade, competência e independência nas instituições que regulam a vida civil. Derrubar barreiras burocráticas é necessário; mudar a Constituição às pressas, sem diálogo, é erguer fissuras na própria fundação democrática.


