Ceuta vive duas noites de protestos e hostilidade à imprensa em crise migratória
Duas noites de protestos em Ceuta elevam tensão: barricadas, tiros de borracha e ataques à imprensa em meio à crise migratória.
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Ceuta vive duas noites de protestos e hostilidade à imprensa em crise migratória
Por Marco Severini — A cidade autônoma de Ceuta enfrentou sua segunda noite consecutiva de mobilizações e confrontos derivados da prolongada crise migratória, com um padrão inquietante: além de barricadas e bloqueios no porto, a imprensa tornou-se alvo explícito da fúria dos manifestantes.
As manifestações, iniciadas na terça-feira em reação à suposta intenção do governo de acomodar migrantes na antiga caserna Coronel Fiscer, voltaram a ganhar força na noite seguinte. A rotina de protesto evoluiu para confrontos mais duros: foram erguidas barricadas, a polícia empregou projéteis de borracha e houve bloqueios nas vias de acesso ao porto, afetando o tráfego e a sensação de ordem pública.
Um elemento recorrente e preocupante destas duas jornadas foi a hostilidade dirigida aos profissionais de mídia. Na terça-feira, um repórter de La Sexta e seu operador foram obrigados a se proteger atrás de mesas de um café ao serem cercados por moradores que gritavam “fora, fora!” enquanto acompanhavam a manifestação. Imagens divulgadas por El Faro de Ceuta, tornadas virais, mostram insultos e empurrões — inclusive por parte de menores — e a reação policial só se materializou após um impulso mais agressivo contra o jornalista.
Na mesma noite, uma jornalista da RTVE optou por retirar o protetor identificador do microfone, medida interpretada nas redes sociais como tentativa de evitar retaliação. Essa precaução, porém, não foi suficiente no dia seguinte. Mesmo com a Polícia Nacional protegendo o acesso à Delegação do Governo, onde se reunia o comitê de monitoramento do mando único — presidido pelo ministro Ángel Víctor Torres e com a presença do presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, da ministra das Migrações, Elma Saiz, e de outros representantes ministeriais por videoconferência —, equipes jornalísticas, entre elas uma troupe da RTVE, foram alvo de insultos conforme confirmou a própria emissora.
A Federação de Associações de Jornalistas da Espanha (FAPE) e o partido Movimiento por la Dignidad y la Ciudadanía (MDyC) qualificaram os incidentes como parte de uma escalada de hostilidade contra a imprensa local. O quadro se soma a episódios recentes de tensão transfronteiriça: algumas semanas antes, equipes da RTVE e da agência EFE foram expulsas da localidade marroquina de Fnideq por autoridades de Rabat.
Não se trata de ocorrências isoladas. Há registro de, há poucas semanas, outro jornalista agredido em Ceuta por ter sido confundido com um migrante. O MDyC enfatiza que, embora a frustração dos moradores após quase um mês de crise seja compreensível, ela não pode converter profissionais da informação — ou as Forças e Corpos de Segurança do Estado — em alvos.
As manifestações tiveram início cerca das 19h, com centenas de residentes — muitos empunhando bandeiras espanholas — entoando slogans como “Ceuta se defende” e “un caballa no se rinde nunca”, e exigindo aceleração nas expulsões de estrangeiros em situação irregular e sem direito de asilo. Com o avançar da noite, o tom intensificou-se, e a situação evoluiu para um confronto que colocou em risco tanto a segurança pública quanto a liberdade de imprensa.
Do ponto de vista estratégico, esse episódio revela mais do que um surto local de descontentamento. Há aqui um redesenho de fronteiras invisíveis na relação entre sociedade civil, mídia e Estado — uma tectônica de poder em que narrativas e representação pública tornam-se campos de batalha. Atacar a imprensa é, em termos geopolíticos, um movimento de cerco ao fluxo de informação: fragiliza-se não só a credibilidade da cobertura, mas também os alicerces da diplomacia e da governança locais.
Em um tabuleiro onde Madrid e Rabat já calibram passos cautelosos, a escalada em Ceuta é um lance arriscado. Obriga o governo central a equilibrar respostas firmes de ordem pública com políticas sensíveis de migração e diálogo bilateral, sob o risco de ampliar fraturas internas e tensionar ainda mais a parceria com o vizinho marroquino. A preservação da imprensa como observadora independente e da segurança dos profissionais é, nesse contexto, uma prioridade que transcende a crônica local: é uma salvaguarda da própria arquitetura democrática.
Conclusão: a situação em Ceuta é um teste de resistência institucional. Num momento em que as peças no tabuleiro se movem rápido, a resposta das autoridades e a proteção da liberdade de informação definirão se se consolida uma solução estável ou se assiste a um prolongamento perigoso da crise.

