Despejo de Maricarmen em Madrid: execução após quatro tentativas ignora apelo da ONU
Aos 87 anos, Maricarmen foi despejada em Madrid após quatro tentativas; polícia dispersou manifestantes e ONU pedia suspensão do despejo.
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Despejo de Maricarmen em Madrid: execução após quatro tentativas ignora apelo da ONU
Por Marco Severini — Em movimento decisivo no tabuleiro urbano de Madrid, foi concretizado na quarta‑feira o despejo de María del Carmen Abascal — conhecida por todos como Maricarmen —, aos 87 anos, do apartamento que ocupava desde 1956, na rua Alcalde Sainz de Baranda, nº 46, no bairro do Retiro.
Trata‑se do quarto intento de expulsão judicial na longa disputa envolvendo a idosa. Após sucessivos adiamentos, a comissão judiciária levou a cabo a execução do despejo. Centenas de cidadãos e ativistas se reuniram desde as primeiras horas nas imediações do prédio em ato de solidariedade, mas a resposta do Estado, representada pela Polícia Nacional, empregou cassetetes e spray de pimenta para dispersar a multidão e assegurar o progresso da operação.
Um cordão policial impediu o acesso de jornalistas e defensores da moradora ao edifício. Por volta das 10h30, depois de uma hora de negociação entre a advogada de Maricarmen, Beatriz Duro, e os agentes, foi confirmado o início do despejo. Operacionais retiraram dos acessos as pessoas que tentavam resistir nas escadas, na calçada e dentro da residência. Uma ambulância levou a idosa, que possui 50% de incapacidade reconhecida.
A advogada chegou a solicitar um prazo mínimo para que Maricarmen pudesse acondicionar seus pertences e encontrar alternativa de moradia, pedido que, segundo Duro, foi rejeitado pelas autoridades. A cena expõe, em termos humanos e jurídicos, os delicados alicerces da diplomacia social em grandes cidades: a proteção de um lar com quase sete décadas de história contra a lógica de mercado que reivindica lucros e renovação do uso do solo.
A origem do litígio remonta a 1956, quando o contrato de locação foi formalizado pelos pais de Maricarmen, com o pai como titular. Após sua morte, o contrato passou à mãe e, em seguida, a Maricarmen. A propriedade do imóvel permaneceu por décadas com uma família que, em 2018, vendeu o prédio à Urbagestión Desarrollo e Inversión S.L., empresa imobiliária com sede entre Madrid e Valladolid. A adquirente alegou a extinção do contrato, tese que acabou sendo confirmada pelo Tribunal Supremo em março, revertendo decisão de primeira instância favorável à moradora.
O quadro econômico agrava o drama: a proposta de aluguel feita pela empresa — 2.500 euros mensais — supera em 247% o que Maricarmen vinha pagando, ficando inviável diante de sua pensão. Além disso, a Urbagestión reclamou 10.000 euros do Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid como indenização por campanhas de apoio à moradora.
Este episódio ocorreu apesar do apelo do Comitê da ONU para os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que havia solicitado em junho ao governo espanhol a suspensão do despejo e a garantia de uma solução habitacional adequada para a senhora. O pedido internacional, porém, não impediu a execução.
Do ponto de vista estratégico, o caso de Maricarmen simboliza um turno na tectônica de poder sobre o espaço urbano: decisão judicial, interesses privados de investimento imobiliário e uma sociedade civil que tenta, no tabuleiro das ruas, proteger laços históricos e direitos sociais. As imagens de hoje — polícia, manifestantes e uma idosa removida de sua casa — desenham um mapa preocupante sobre a redefinição de quem pode permanecer na cidade histórica e sob que termos.
Enquanto as controvérsias legais provavelmente se estenderão nos desdobramentos judiciais e políticos, a dimensão humana permanece inequívoca: uma vida de quase setenta anos de permanência em um lar foi interrompida, deixando o debate sobre moradia e dignidade no centro do palco público.

