Eurodeputados pedem desbloqueio dos bens russos congelados para financiar a defesa da Ucrânia
Eurodeputados pedem que UE desbloqueie bens russos congelados para financiar a defesa da Ucrânia e cobrir déficit de 23 bilhões de euros.
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Eurodeputados pedem desbloqueio dos bens russos congelados para financiar a defesa da Ucrânia
Por Marco Severini — Em um movimento que revela mais do que mera urgência financeira, mais de 100 eurodeputados solicitaram aos líderes da União Europeia a reabertura dos diálogos sobre a utilização dos bens russos congelados como instrumento de apoio à Ucrânia. A iniciativa é um reflexo da crescente tensão entre a necessidade estratégica de sustentar Kyiv e os cuidados jurídicos que alguns Estados-membro mantêm como alicerce de sua diplomacia doméstica.
De acordo com a carta dirigida a altos responsáveis europeus e consultada por Euronews, a lacuna de financiamento apontada por Kyiv — um déficit de aproximadamente 23 bilhões de euros para a defesa — não pode ser ignorada. Enquanto isso, Bruxelas detém mais de 200 bilhões de euros em ativos russos, concentrados em grande medida na Bélgica, onde opera o depositário Euroclear.
O plano inicialmente apresentado pela Comissão Europeia em dezembro previa transformar esses ativos em um empréstimo a taxa zero para sustentar os esforços defensivos ucranianos diante da invasão em larga escala promovida por Moscou. Contudo, preocupações legais, sobretudo levantadas pelo governo belga liderado por Bart De Wever, e por outros Estados como Itália, Bulgária e Malta, fizeram naufragar a proposta durante o último encontro de líderes em Bruxelas.
Não se trata apenas de contabilidade: trata-se de quem arca com as consequências de um ato bélico. Os signatários da carta — que incluem eurodeputados do Partido Popular Europeu, Renew Europe, Socialistas e Democratas, Verdes/ALE, Conservadores e Riformistas Europeus e The Left — defendem que a Rússia deve assumir o ônus financeiro de sua agressão. A iniciativa foi promovida pelos liberais Karin Karlsbro, Nathalie Loiseau e Petras Auštrevičius.
Na tessitura política proposta pelos eurodeputados, seria criado um novo instrumento da UE ao qual os ativos seriam transferidos. Esse mecanismo assumiria as obrigações jurídicas face ao banco central russo, isolando os Estados-membro do risco direto de litígios e, simultaneamente, convertendo a pressão econômica em fluxo de recursos para Kyiv. Uma jogada pensada como um movimento de xadrez: reposicionar peças no tabuleiro para abrir uma rota segura e eficaz de suporte sem expor as casas vulneráveis do aliado.
O bloco europeu já mobilizou um empréstimo de apoio definitivo de 90 bilhões de euros no começo do ano, mas os eurodeputados advertiram que o montante será insuficiente diante do custo estimado das destruições — superior a 600 bilhões de euros. O apelo foi dirigido, entre outros, à presidente da Comissão Ursula von der Leyen, à alta representante Kaja Kallas, ao comissário Valdis Dombrovskis, ao presidente do Conselho Europeu António Costa e ao Taoiseach Micheál Martin, que exerce a presidência rotativa do Conselho.
Na minha leitura, enquanto analista das dinâmicas de poder, o que está em jogo é mais do que dinheiro: é o redesenho, ainda que simbólico, das fronteiras de responsabilidade internacional. A proposta busca construir um instrumento jurídico-financeiro capaz de transformar ativos congelados em alavanca estratégica, enquanto mantém a pressão econômica sobre Moscou. É um movimento que requer precisão institucional — arquitetura jurídica robusta — e consenso político. Sem isso, a UE corre o risco de ver suas reservas estratégicas transformarem-se apenas em pedra inerte sobre o tabuleiro.
Em suma, a carta dos eurodeputados é um apelo para que a União Europeia encontre uma solução que una prudência jurídica com audácia diplomática. A estabilidade do equilíbrio europeu depende de decisões desse calibre: medidas que preservem as instituições, protejam os Estados-membro de litígios e, ao mesmo tempo, assegurem que os custos da guerra sejam efetivamente suportados por quem a provocou.

