Europa reforça apoio à Ucrânia: €6,1 bilhões e mísseis para enfrentar o inverno
Europa anuncia €6,1 bi para defesa da Ucrânia, envia mísseis e tecnologia SCALP; diplomacia europeia assume papel central diante da ausência de enviados dos EUA.
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Europa reforça apoio à Ucrânia: €6,1 bilhões e mísseis para enfrentar o inverno
Por Marco Severini — Em um movimento de caráter tanto simbólico quanto estratégico, Kiev tornou-se o ponto focal da solidariedade europeia no dia em que a Ucrânia celebra 35 anos da restauração da sua independência e cinco anos desde a invasão russa em larga escala. Ao lado do presidente Volodymyr Zelensky, líderes e representantes europeus consolidaram compromissos concretos destinados a preparar o país para um inverno que se anuncia perigoso.
Na efeméride nacional, a União Europeia anunciou um envelope adicional de 6,1 bilhões de euros direcionado à defesa ucraniana. Esses recursos, parte do amplo pacote de empréstimo europeu de 90 bilhões de euros para 2026‑2027, foram destinados à aquisição de sistemas antiaéreos e antimíssil, mísseis, munições e radares — itens críticos diante da intensificação dos ataques por parte das forças russas.
No terreno, marcaram presença o primeiro‑ministro britânico Andy Burnham — em sua primeira viagem internacional desde que assumiu o cargo — e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. O presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, participaram por videoconferência da reunião da chamada "Coalizão dos Dispostos", que reúne Estados comprometidos em ampliar o apoio militar e desenhar garantias de segurança futuras para a Ucrânia.
Costa, flanqueado por Zelensky e Burnham, reiterou que a Europa apoiará Kiev "pelo tempo que for necessário", vinculando o futuro ucraniano a um horizonte de integração europeia. "A Rússia não prevalecerá", declarou o presidente do Conselho, numa declaração que reforça a recusa da União em adotar neutralidade diante da violação do direito internacional.
Ao mesmo tempo, a ausência de destacados representantes do círculo do ex‑presidente Trump — nomeadamente Steve Witkoff e Jared Kushner, cuja visita havia sido cogitada — salientou um vácuo político que a diplomacia europeia tratou de preencher. Já figuras como o ex‑vice‑presidente Mike Pence e o antigo enviado especial Keith Kellogg estiveram em Kiev durante o fim de semana, realçando a complexidade do tabuleiro transatlântico.
No plano industrial e tecnológico, Londres deu um passo relevante: o governo autorizou a MBDA a partilhar informações desclassificadas sobre componentes britânicos do míssil de longo alcance SCALP — a versão franco‑britânica conhecida também como Storm Shadow — com parceiros ucranianos. O objetivo é permitir que a indústria ucraniana desenvolva linhas de montagem locais e aumente, ao longo do tempo, sua capacidade de produção de mísseis de longo alcance.
O conjunto dessas decisões representa um movimento decisivo no tabuleiro de poder europeu: não se trata apenas de transferir recursos, mas de edificar alicerces industriais e estratégicos que redesenhem, de forma invisível, linhas de influência e capacidade. A crescente centralidade europeia no apoio militar à Ucrânia não elimina o papel dos Estados Unidos, mas sinaliza uma tectônica de poder em que Bruxelas busca assumir maior responsabilidade pela estabilidade do continente.
Em termos práticos, a soma dos anúncios — financiamento, assistência técnica e coordenação política — visa mitigar a escassez de interceptores e radares que preocupa Kiev, tentando transformar solidariedade em capacidade operacional sustentável.
Do ponto de vista geopolítico, a operação europeia revela tanto a determinação de preservar a integridade do direito internacional quanto a preocupação em evitar que os alicerces da defesa ucraniana se esfarelem com a chegada dos rigores do inverno. Em suma: um movimento calculado para consolidar alianças e preservar a resiliência de um parceiro em situação crítica.

