Europeus ainda acreditam no sonho europeu, mas duvidam da sua realização
Estudo revela que europeus acreditam no sonho europeu, mas duvidam de sua realização; confiança enfraquecida exige resposta estratégica e narrativa clara.
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Europeus ainda acreditam no sonho europeu, mas duvidam da sua realização
Por Marco Severini — Em um momento em que as linhas do poder se redesenham com lentidão e pressa simultâneas, um novo estudo intitulado Future Nostalgia: Europe's Unfinished Song, publicado pelo European Council on Foreign Relations (ECFR) e pela European Cultural Foundation (ECF), confirma uma tensão central no tecido político do continente: os cidadãos europeus continuam fiéis ao sonho europeu, mas perderam a confiança na sua concretização. Este diagnóstico foi citado também no discurso sobre o estado da União feito por Ursula von der Leyen, que alertou para uma verdadeira "batalha de narrativas" destinada a enfraquecer a fé na União Europeia.
Os resultados, baseados em quase seis mil entrevistas realizadas em seis países, pintam a imagem de uma opinião pública que não abandonou o projeto europeu, mas que vê os seus alicerces como frágeis diante de desafios externos e internos. Em média, 68% dos entrevistados descrevem a situação atual da Europa em termos de "deterioração geral ou perda de normalidade", enquanto apenas 12% a qualificam como um momento de "despertar ou renovação". O pessimismo é mais pronunciado em países como a França, onde ultrapassa 80%, e menos acentuado no Reino Unido, embora ainda majoritário.
Quando perguntados sobre as principais ameaças ao futuro do continente, a guerra e a segurança lideram com 43% — chegado a 47% na Polônia e no Reino Unido — refletindo o impacto direto das fronteiras contestadas e dos conflitos ao redor da Europa. Em seguida vêm as pressões econômicas, apontadas por 33% dos inquiridos. Importa notar sensibilidades nacionais distintas: 41% dos italianos veem as tensões econômicas como a principal preocupação, enquanto apenas 23% dos entrevistados na Polônia e nos Países Baixos compartilham dessa prioridade.
O veredito sobre a capacidade de resposta europeia é severo: 74% consideram que a União está a gerir mal os seus desafios e 56% acreditam que o futuro da Europa está "em perigo" — contra apenas 21% que discordam dessa leitura. Ainda assim, o relatório revela um paradoxo de esperança: cerca de 73% mantém uma visão positiva do futuro europeu, frente a 14% com visão negativa e 13% sem opinião clara. Quando convidados a imaginar a Europa daqui a 20 anos, os cidadãos evocam prioritariamente maior integração política e unidade, seguidas por paz, segurança e prosperidade compartilhada.
Os autores do estudo falam explicitamente de um "déficit de imaginação": não se trata de um desapego ao projeto em si, mas de uma descrença na sua realizabilidade. Entre as razões apontadas para essa perda de confiança, quase um terço (32%) descreve a Europa como demasiado lenta na tomada de decisão — uma crítica que ressoa como um problema estrutural, não apenas conjuntural.
Do ponto de vista estratégico, esta dupla sensação — apego ao ideal e descrença quanto à sua implementação — configura um risco geopolítico e um desafio de comunicação. Em linguagem de xadrez diplomático, trata-se de manter as peças no tabuleiro e, ao mesmo tempo, recuperar a capacidade de fazer movimentos decisivos. A tarefa para as lideranças europeias é dupla: reconstruir a credibilidade operacional da União e recuperar a imaginação coletiva que torna possível um projeto comum. Sem isso, corre-se o risco de ver o sonho europeu reduzido a uma arquitetura formal, bonita no papel mas incapaz de sustentar os pesos reais da política internacional.
Em última análise, a pesquisa sugere que a batalha das narrativas travada por lideranças e atores estatais não é um tema periférico: ela atua diretamente sobre a coesão e sobre a capacidade da Europa de agir como ator estratégico. Reconstruir a confiança exigirá movimentos coordenados, rapidez decisória e, acima de tudo, uma visão comunicada com autoridade — fundamentos de uma diplomacia que não apenas arquitetará acordos, mas os fará crer novamente possíveis.

