Malta: júri absolve Yorgen Fenech, acusado de mandar matar Daphne Caruana Galizia

Júri em Malta absolve Yorgen Fenech, acusado de ordenar o atentado que matou a jornalista Daphne Caruana Galizia; decisão reacende debate sobre impunidade.

Malta: júri absolve Yorgen Fenech, acusado de mandar matar Daphne Caruana Galizia

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Malta: júri absolve Yorgen Fenech, acusado de mandar matar Daphne Caruana Galizia

Por Marco Severini – Em um movimento que redesenha, mais uma vez, as linhas invisíveis da geopolítica maltêsa, um júri em La Valletta absolveu na quarta-feira o empresário maltês Yorgen Fenech das acusações de ser o mandante do atentado com autobomba que vitimou a jornalista investigativa Daphne Caruana Galizia em 2017.

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A decisão judicial encerra o processo contra o último dos seis réus ligados ao complô, mas não apaga os efeitos sísmicos que o crime provocou no tecido institucional de Malta. O assassinato de Caruana Galizia, em 16 de outubro de 2017, não foi apenas um ataque a uma pessoa; constituiu um movimento decisivo num tabuleiro onde se desenham alicerces frágeis da diplomacia e da governança.

Fenech, empresário ligado a um consórcio que havia obtido um contrato controverso para a construção de uma usina elétrica pelo governo maltês, foi indiciado em 2021 por complicidade e associação criminosa. A acusação sustentava que ele teria ordenado e financiado o assassinato. O réu declarou-se inocente ao longo do processo e, após o veredicto, deixou o tribunal em meio a cenas de tumulto — vaias, insultos e protestos — sem proferir comentários.

O episódio colocou Malta, o menor Estado-membro da União Europeia, sob intenso escrutínio internacional. As investigações e as repercussões políticas culminaram em manifestações que levaram à renúncia de um primeiro-ministro e revelaram uma cultura de impunidade denunciada por uma comissão independente em 2021, que concluiu que o Estado devia assumir sua parcela de responsabilidade pelo contexto que permitiu o crime.

Responsabilidades criminais já tinham sido reconhecidas em outros elos da cadeia: em 2022, George e Alfred Degiorgio foram condenados a 40 anos de prisão cada um por execução do atentado; em 2025, Jamie Vella e Robert Agius receberam prisão perpétua por cumplicidade ao fornecerem o explosivo; Vincent Muscat se declarou culpado em 2021 e foi sentenciado a 15 anos; e Melvin Theuma, intermediário que colaborou com as investigações, obteve clemência presidencial em 2019 em troca de depoimento.

Os filhos de Caruana Galizia acompanharam a leitura do veredicto no tribunal e, visivelmente abalados, deixaram o local sem comentários. Para a família e para boa parte da sociedade civil maltêsa, a absolvição de Fenech reabre perguntas sobre os limites entre poder econômico e político, e sobre a eficácia das instituições em proteger a integridade do Estado.

Na perspectiva de quem observa o tabuleiro estratégico europeu, a sentença confirma que atores estatais e não estatais continuam a operar numa arena onde a tectônica de poder se reacomoda a cada decisão judicial. A estabilidade das relações e a credibilidade institucional exigem que Malta traduza, em reformas concretas, as lições deste caso: fortalecer investigações independentes, blindar o sistema judiciário e desmantelar os vetores da impunidade.

Ao fim, a absolvição de Yorgen Fenech não é um ponto final sobre a morte de Daphne Caruana Galizia. É antes um movimento no tabuleiro que impõe novos desafios à busca por responsabilidade política e justiça — uma partida em que as peças institucionais ainda precisam se alinhar para reconstruir confiança e prevenir que feridas semelhantes voltem a abrir.

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