UE perde 1 em cada 4 litros de água potável tratada: como a digitalização pode virar o jogo
UE perde 1 em cada 4 litros de água tratada; digitalização e investimentos são cruciais para reduzir perdas e garantir resiliência hídrica.
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UE perde 1 em cada 4 litros de água potável tratada: como a digitalização pode virar o jogo
Por Marco Severini — Em um momento em que a tectônica de poder ambiental muda o mapa das prioridades estratégicas, a União Europeia enfrenta um desafio silencioso e subterrâneo: uma fração substancial da água tratada desaparece antes de alcançar as torneiras. Não se trata apenas de um problema técnico, mas de um movimento decisivo no tabuleiro da resiliência hídrica.
Dados agregados indicam que cerca de 23% da água classificada como não faturada — a chamada NRW (Non-Revenue Water) — resulta de perdas de água. O contraste entre Estados-membros é pronunciado: enquanto os Países Baixos mantêm perdas em torno de 6%, a Bulgária chega a cerca de 45%. Essa disparidade desenha um mapa desigual, quase cartográfico, da qualidade das redes e das prioridades de investimento.
O fenômeno não é abstrato. Em 2024, 67% dos imóveis monitorados na União Europeia apresentavam vazamentos, com 772 milhões de litros de água perdidos — volume equivalente a aproximadamente 300 piscinas olímpicas — e custos que ultrapassaram 3 milhões de euros. No relatório de 2025 da empresa finlandesa Smartvatten, de um total de 19,3 bilhões de litros monitorados, 1,47 bilhão foram desperdiçados por vazamentos: o equivalente a cerca de 9,8 milhões de banheiras. Números assim materializam o desperdício em termos que administradores e estadistas conseguem avaliar.
As raízes do problema permanecem históricas e estruturais. Das redes de água potável, com aproximadamente 4,4 milhões de quilômetros, às redes de esgoto, cerca de 2,6 milhões de quilômetros, grande parte das tubulações foi erguida no pós‑guerra e hoje exibe os sinais naturais do tempo: corrosão, movimentos de solo, variações térmicas e alterações químicas da água que minam a integridade das condutas.
“Grande parte das infraestruturas é subterrânea e, portanto, politicamente e publicamente invisível até que algo se rompa”, observa Durk Krol, diretor executivo da Water Europe. A invisibilidade política traduz‑se em subinvestimento: tarifas e orçamentos públicos nem sempre cobrem os custos de operação, manutenção e renovação de uma malha que deve durar décadas.
Para a eurodeputada Hildegard Bentele, presidente do MEP Water Group, a fragilidade é também cultural: por tempo demais, a água deixou de ser tratada como prioridade estratégica. A Water Resilience Strategy da União Europeia surge, portanto, como uma tentativa de reconstruir os alicerces frágeis da diplomacia dos recursos, redesenhando fronteiras invisíveis entre segurança hídrica, economia e coesão social.
O fator climático agrava o quadro. Ondas de calor e longos períodos sem precipitação reduzem a disponibilidade de água; as perdas nas redes amplificam esse déficit, consumindo recursos que já foram tratados e poderiam atender populações vulneráveis ou setores críticos. É uma dupla erosão — da oferta e da infraestrutura — que exige resposta estratégica.
A solução, porém, não exige apenas mais tubos: requer um novo mapa operacional. A digitalização das infraestruturas — sensores distribuídos, contadores inteligentes, monitoramento remoto e análise de dados em tempo real — oferece ferramentas para detectar vazamentos, priorizar intervenções e otimizar custos. Implementada com critérios técnicos e políticos, a tecnologia transforma a gestão em jogo de xadrez informado, em que cada movimento preserva recursos e reduz riscos sistêmicos.
Mas a transição tem custo e demanda governança: tarifas alinhadas à sustentabilidade, programas de investimento público‑privado, capacitação técnica e regulação que incentive a manutenção preventiva. Sem essas medidas, a digitalização corre o risco de permanecer um luxo pontual, enquanto as redes envelhecem.
Na prática, o combate às perdas de água representa uma oportunidade geoestratégica: melhorar segurança hídrica, reduzir desperdício energético no tratamento e transporte, e fortalecer a coesão dos Estados‑membros. É um movimento de longo prazo no tabuleiro europeu — técnico, financeiro e político — que exige liderança serena, planos robustos e execução disciplinada.
O relógio climático não perdoa a procrastinação. A escolha entre manter o status quo ou modernizar as redes será, nas próximas décadas, um dos vetores que definirá a resiliência dos sistemas urbanos e a capacidade da União Europeia de preservar um recurso essencial sem perder o equilíbrio estratégico.

