Monica Guerritore emociona em Ballando: a reação ao 'não' dos David di Donatello por Anna
Monica Guerritore fala sobre o impacto de Anna não ter indicações aos David di Donatello e sua reação antes do show em Ballando. 36 pontos na performance.
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Monica Guerritore emociona em Ballando: a reação ao 'não' dos David di Donatello por Anna
Por Chiara Lombardi — Em uma interpretação que pareceu mais um confessionário do que uma performance, Monica Guerritore falou abertamente, antes de subir ao palco na quinta edição do programa Ballando con le stelle, sobre o impacto emocional de ver seu filme Anna (2025) ignorado pelos prêmios David di Donatello.
“Não estou falando de culpa, mas de sensibilidade e sentimento: dentro de você, se algo se apaga, talvez abra espaço para algo que já estava ali.” As palavras, proferidas pouco antes da exibição, traçam o contorno de uma ferida íntima — a constatação de que um trabalho que se sabe ter valor não recebeu sequer uma candidatura nas 20 categorias dos David. “Me senti com o coração gelado. Me senti fria”, confessou a atriz, cuja trajetória recente inclui a dura batalha contra um tumor.
Na narrativa de Guerritore há a precisão de quem conhece o ofício: a frágil diferença entre rejeição e desdém, entre um silêncio institucional e o reconhecimento público. “Minha fragilidade maior não é sentimental, mas quando as pessoas desprezam ou depreciam o que você fez. Aos 50 ou 60 anos você sabe quando algo tem valor. E não é reconhecido porque há algo por trás.”
Essa recusa externa, explicou a atriz, teve consequências físicas: “Eu me adoeci porque não tive nem uma indicação aos David di Donatello... Contraí a doença e, por vezes, não há um único motivo que gere um marcador; o que ocorre é o baixar das defesas.” A imagem que ela oferece — a de um corpo e uma carreira que contrapõem a vida a um “frio no coração” — funciona como um espelho do nosso tempo, onde a avaliação cultural muitas vezes se confunde com jogos de poder e visibilidade.
No palco, a performance no chamado slowflow trouxe um tom contido e, apesar de observações sobre a técnica, arrancou 36 pontos dos jurados. O resultado, numericamente modesto, reforça uma leitura em que a arte permanece o ponto de encontro entre autobiografia e cena pública: o espetáculo como reframe da realidade, e a reação pública como medidor simbólico de valor.
Como analista cultural, não posso deixar de ver nessa sequência uma pequena parábola sobre o ofício: o cinema e o teatro são espelhos que nos devolvem histórias — e, às vezes, o espelho falha, não por falta de qualidade, mas por uma indefinição coletiva sobre o que merece, de fato, ser lembrado. A posição de Monica é, portanto, menos um desabafo pessoal e mais um alerta sobre a semiótica do reconhecimento: quem decide quais obras entram no cânone de uma temporada e por que?
Fica a sensação de que, no roteiro oculto da sociedade, a validação institucional continua tendo peso real — até no corpo que adoece e na voz que, no palco, desafia o frio com calor de vida. E, para além dos scores e das categorias, restam as perguntas que o cinema nos faz: o que preservamos da memória coletiva e quem escolhe o que merece ser lembrado.

