EUA: administração Trump freia naturalizações e atrasa 380 mil potenciais eleitores
Administração Trump reduziu naturalizações e retardou a cidadania de quase 380 mil potenciais eleitores, alterando o mapa eleitoral dos EUA.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
EUA: administração Trump freia naturalizações e atrasa 380 mil potenciais eleitores
Por Marco Severini — Em um movimento que altera a configuração do tabuleiro democrático, a administração Trump reduziu de forma marcada o número de naturalizações concedidas nos últimos meses, criando um efeito direto sobre centenas de milhares de imigrantes que aguardavam a obtenção da cidadania e, por consequência, o direito de votar nas eleições de meio de mandato (midterm).
Dados oficiais da agência USCIS mostram que, entre abril e junho, foram aprovadas aproximadamente 55.000 solicitações de cidadania, ante mais de 230.000 no mesmo período do ano anterior. No acumulado dos primeiros oito meses de 2026, apenas 173.000 pessoas receberam naturalização — uma queda de 72% em relação ao intervalo equivalente do ano anterior. Projeções simples indicam que, se o ritmo de aprovação tivesse permanecido inalterado, quase 380.000 imigrantes teriam obtido a cidadania no último ano e, portanto, o direito de votar.
Os números refletem uma mudança prática de procedimentos iniciada no final de 2025: a USCIS instituiu protocolos mais longos e rigorosos, incluindo varreduras de perfis em redes sociais em busca de supostas “atividades antiamericanas”, além de exigências mais severas sobre proficiência em inglês e conhecimentos de educação cívica. Ao mesmo tempo, cerimônias de naturalização foram reduzidas ou canceladas em diversas jurisdições, afetando organizações civis que normalmente registram esses novos eleitores.
Advogados de imigração e entidades de defesa dos direitos civis descrevem os atrasos como deliberados. Conforme relata Diego Ferreyra, advogado de imigração na Virgínia, trata-se de um gesto intencional que deixa milhares de imigrantes em suspensão — uma nova linha de frente na disputa pelo eleitorado. Para muitos, o resultado é um impasse burocrático que muda prazos concretos: quem esperava naturalizar-se para votar em 3 de novembro viu essa expectativa se dissipar.
O impacto político concreto é complexo. Historicamente, o padrão de voto entre recém-naturalizados variou: em 2020 esse bloco favoreceu Joe Biden; em 2024 houve uma tendência a migrar para Donald Trump. Ao mesmo tempo, ações de política migratória — sobretudo deportações amplas — parecem ter reconduzido parte desse eleitorado para a órbita democrata, segundo sondagens recentes. Assim, a contenção de naturalizações cria uma incógnita eleitoral relevante, sem garantias sobre a direção do efeito político.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que altera os alicerces da participação cívica: uma mudança processual na burocracia se traduz em redesenho discreto das fronteiras da cidadania e do eleitorado. Em termos de realpolitik, a iniciativa funciona como um movimento defensivo no tabuleiro, reduzindo a entrada de peças potencialmente voláteis antes do turno decisivo.
As consequências humanas são claras: famílias e indivíduos que planejaram sua integração cívica veem adiada uma etapa simbólica e prática de pertencimento. Além do cálculo eleitoral, essa política levanta questões sobre equidade no acesso aos direitos fundamentais e sobre a orientação de longo prazo das instituições de imigração americanas.
Enquanto isso, organizações de direitos civis e advogados seguem monitorando decisões da USCIS, preparando recursos e tentando mitigar o impacto dos atrasos. A tectônica de poder em jogo aqui é menos óbvia que um comício: opera por procedimentos administrativos que, somados, podem redesenhar o eleitorado em um momento crítico da democracia norte-americana.

