Da ilusão da força ao retorno da realidade: Eurasia, energia e o risco de um novo “momento Tet” global
Análise estratégica sobre Eurasia, energia e o risco de um novo 'momento Tet' global; os custos para a Europa e a resiliência de Rússia e Irã.
RESUMO ✦
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Da ilusão da força ao retorno da realidade: Eurasia, energia e o risco de um novo “momento Tet” global
Por Marco Severini — Em um movimento que lembra uma lição antiga do ringue, um veterano subestimado pode virar o jogo com um golpe bem calculado. Essa imagem é útil para compreender as mudanças estratégicas que hoje redesenham a cartografia do poder. Subestimar adversários continua sendo um dos erros mais dispendiosos na história das relações internacionais.
O panorama contemporâneo revela como a Europa tem experimentado o custo oculto de escolhas políticas condicionadas por retóricas e pressões externas. Os bilhões destinados ao apoio à Ucrânia, combinados com as sanções e as recentes tensões no Golfo, produziram efeitos em cadeia que atingem desde a energia até os alicerces da produção agrícola.
O aumento no preço dos combustíveis e das matérias‑primas erosiona a competitividade industrial; a escassez e o encarecimento de fertilizantes — consequência direta do enfraquecimento das relações comerciais com Moscou — expõem a fragilidade das cadeias de abastecimento. Em linguagem de estratégia: a Europa vê seus pilares de autonomia internalmente corroídos enquanto corre atrás de soluções de emergência.
No outro lado do tabuleiro, a Rússia não se consolidou como vítima isolada. Ao contrário do prognóstico simplista de um declínio rápido, Moscou tem executado um redesenho ponderado de suas rotas de dependência, deslocando fluxos econômicos e energéticos para a Eurasia e o Sul Global. China e Índia emergem como parceiros centrais, e novos atores energéticos completam um mosaico que reduz a vulnerabilidade russa às sanções ocidentais.
As tensões no Golfo reforçam esse quadro: a alta dos preços do petróleo e do gás tem ampliado as receitas que sustentam a resiliência do sistema russo. Moscou, por sua vez, demonstra que qualquer reaproximação energética será objeto de condições políticas claras e prazos pensados — não um retorno automático a suprimentos anteriores.
O paralelo com o ofensa do Tet (1968) é, sobretudo, psicológico. Naquele episódio, a derrota simbólica foi tão poderosa quanto uma perda militar: abalou percepções de invencibilidade. Hoje, o risco não é um confronto simétrico convencional, mas um erosivo processo de delegitimação das certezas estratégicas ocidentais diante de formas crescentes de guerra assimétrica — drones, mísseis de preciso alcance, e o controle de rotas marítimas cruciais.
O Irã, por sua posição geográfica e por suas capacidades assimetricas, figura como ator capaz de influir substancialmente nesses equilíbrios. A ameaça não é apenas a destruição física de ativos, mas a capacidade de gerar uma percepção de insegurança crônica nas rotas de comércio e energia — um efeito que, estrategicamente, pode reverberar mais que um ataque isolado.
Para a diplomacia europeia e para as estratégias ocidentais, a lição é dupla e clara: não se trata apenas de ajustar políticas econômicas, mas de repensar suposições sobre capacidade de coerção e alcance político dos atores extra‑ocidentais. A tectônica de poder em curso aponta para um mundo onde a superioridade tecnológica não assegura automaticamente o domínio político. É um tabuleiro em que um movimento decisivo pode emergir de um lugar subestimado.
Concluo com a advertência de que a complacência custa caro. Os alicerces frágeis da diplomacia exigem um reposicionamento realista e estratégico — uma arquitetura de resposta que una robustez econômica, diversificação de fornecimentos e preparação para ameaças assimétricas. Só assim será possível contrabalançar, no plano global, o redesenho silencioso das fronteiras de influência.