Follini: a política reduzida aos excessos e o custo para a cidadania
Follini analisa como a política italiana se resume a excessos retóricos, usando o caso Siher e a reação de Meloni para discutir efeitos na cidadania.
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Follini: a política reduzida aos excessos e o custo para a cidadania
Por Giuseppe Borgo — O recente episódio em torno da decisão do juiz de instrução de anular o mandato de prisão contra Youssef Siher, pedido pela Procura de Milão, reacendeu uma discussão pública que revela muito mais do que um conflito jurídico isolado. A reação da primeira-ministra Giorgia Meloni, definindo a medida como “vergognoso”, buscou transformar uma crítica processual em uma condenação moral sem apelo. Mas é precisamente essa conversão da política em veredito ético que merece exame.
O que chama a atenção não é apenas a dureza da palavra, mas a rapidez com que esse tipo de controvérsia se inflama e logo depois se apaga. Como se estivéssemos diante de fogueiras públicas — prontas a aquecer a plateia por algumas horas — que, ao amanhecer, deixam pouco mais que cinzas. Esse ciclo revela uma fraqueza estrutural: a política contemporânea fala majoritariamente por meio de excessos, e não por debate sustentado.
Essa forma ritualizada de indignação tem consequências práticas. Primeiro, ela impede a construção de pontes entre governantes e cidadãos, sobretudo entre o Executivo e os movimentos de protesto, que, no episódio em questão, nunca foram objeto de uma tentativa séria de interlocução por parte do Governo. Segundo, cria um ambiente em que as palavras perdem peso: a repetição torna a declaração fácil de consumir e fácil de ignorar.
Há também um efeito político-eleitoral: a performance retórica frequentemente substitui resultados concretos. O furor verbal serve como anteparo para uma pobreza de realizações tangíveis. Em bom português de canteiro — a política vira fachada vistosa, mas com alicerces frágeis. E os cidadãos, na base dessa construção, ficam expostos às intempéries da comunicação urgente e efêmera.
Não vale aqui um lamento nostálgico pelos líderes do passado, capazes — segundo a memória coletiva — de guiar partidários para soluções mais construtivas. Reconhecer as diferenças de época é preciso. Mas reconhecer também que a maioria dos atores contemporâneos não é, per se, incendiária, abre espaço para uma exigência: que façam apelo ao senso de realidade que têm. Seria um gesto de responsabilidade cívica reconhecer que o maior prejuízo não vem apenas de um erro político pontual, e sim do hábito de transformar tudo em espetáculo de indignação.
Quando a política se reduz a um jogo de máximas retóricas, perde medida. E a medida é o que garante que a decisão pública respeite tanto a lei quanto a vida cotidiana dos cidadãos — imigrantes, ítalo-descendentes e nativos — que dependem das instituições. Precisamos, como sociedade, reconstruir alicerces: menos ritualidade, mais diálogo, menos proclamações que pregam a unidade enquanto ampliam a fratura.
Se a linguagem pública sofre desse esgotamento, resta à imprensa e aos observadores independentes a função de reconstituir a ponte entre o que se diz em Roma e o efeito real nas ruas. É essa arquitetura do debate que devemos preservar: não para embelezar a fachada do poder, mas para fortalecer os fundamentos da convivência democrática.

