União Europeia reduz pela metade os pacotes de baixo valor para conter o avanço do e-commerce chinês
UE corta quase 50% dos pacotes de baixo valor desde 1º de julho com taxa de 3€ para frear o e-commerce chinês e fortalecer controles aduaneiros.
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União Europeia reduz pela metade os pacotes de baixo valor para conter o avanço do e-commerce chinês
Por Marco Severini — A mais recente intervenção normativa da União Europeia produziu um movimento tectônico perceptível no comércio eletrônico: desde 1º de julho, o número de pacotes de baixo valor (valor inferior a 150 euros) chegados ao continente caiu quase 50%, segundo dados aduaneiros dos Países Baixos e da Bélgica. A medida temporária, uma taxa aduaneira de 3 euros aplicada a essas remessas, surgiu como uma resposta estratégica para conter o domínio massivo do e-commerce chinês no mercado europeu.
Nas estatísticas recentes, a Bélgica registrou uma queda de 53% em pequenos volumes face ao ano anterior; os números holandeses são análogos, com um recuo de 46% nos pacotes provenientes especialmente da China. Juntos, Bélgica e Países Baixos respondem por quase metade do total de remessas de baixo valor oriundas de fora da UE, tornando-os um barômetro útil para aferir o impacto imediato da medida.
Contudo, a redução observada pode esconder um reposicionamento logístico. As autoridades aduaneiras neerlandesas indicam que muitas empresas estariam optando pelo importar em lotes maiores e pelo armazenamento dentro da UE, para depois redistribuir mercadorias ao consumidor final — uma mudança tática no tabuleiro que dilui o efeito direto do encargo sobre cada pacote.
O pretexto político para a intervenção é robusto: dados da Comissão Europeia apontam que, em 2024, entraram na UE cerca de 4,6 bilhões de artigos de baixo valor (abaixo de 150 euros) — a média equivalente a 12 milhões de pacotes por dia. Em comparação, foram 2,3 bilhões em 2023 e 1,4 bilhão em 2022. Esse fluxo exponencial não apenas tensiona recursos administrativos, como fragiliza os alicerces do controle aduaneiro europeu, dificultando a detecção de produtos ilegais e perigosos.
O problema de segurança e saúde pública é concreto. Um estudo laboratorial de 2025, publicado na revista Contact Dermatitis após revisão por pares, analisou 111 peças de vestuário vendidas na Itália e em outros Estados-membros e identificou substâncias cancerígenas, disruptores endócrinos ou sensibilizantes em 63% dos itens. Relatórios similares foram divulgados por Greenpeace e pela Organização Europeia dos Consumidores (BEUC), reforçando a necessidade de mecanismos de verificação mais eficazes.
Para Dirk Gotink, eurodeputado holandês responsável pela reforma aduaneira no Parlamento Europeu, a taxa aduaneira temporária já demonstrou sua eficácia ao reduzir significativamente o fluxo de pacotes, mas não basta. A reforma em tramitação prevê modernizar o sistema: um centro de dados central, mais controles baseados em risco, cooperação reforçada entre autoridades nacionais e a criação de uma Autoridade Aduaneira Europeia com sede em Lille. São instrumentos projetados para recuperar capacidade de supervisão e proteger empresas e consumidores contra riscos comerciais e sanitários.
Como analista, observo este episódio como um movimento de redistribuição das forças no tabuleiro global. A taxa de 3 euros funciona como uma peça jogada para ganhar tempo e redesenhar linhas de defesa comerciais — forçando atores a recalibrar cadeias logísticas e pressionando por normas europeias mais robustas. Resta saber se as alterações serão estruturais: se o sistema aduaneiro se modernizará suficientemente para transformar uma vantagem tática em estabilidade estratégica duradoura.

