Frankie Hi-Nrg Mc celebra histórico Prêmio Tenco: “Orgulho por ver o rap entrar no cantautorato”
Frankie Hi-Nrg Mc é o primeiro rapper a receber o Premio Tenco, celebrando a entrada do rap no cantautorato e apresentando o projeto Voce e batteria.
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Frankie Hi-Nrg Mc celebra histórico Prêmio Tenco: “Orgulho por ver o rap entrar no cantautorato”
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que funciona como um pequeno reframe no roteiro cultural italiano, Frankie Hi-Nrg Mc assinou uma página histórica ao receber, no palco do Teatro Ariston, o Premio Tenco alla Carriera. É a primeira vez que um rapper conquista este reconhecimento de uma das mais reverenciadas mostras dedicadas à canzone d'autore, sinalizando que o rap não é mais uma periferia sonora, mas parte do perímetro do cantautorato italiano.
Visivelmente emocionado e dividido entre orgulho e surpresa, Frankie definiu a premiação como um reconhecimento do seu percurso e, ao mesmo tempo, como um marco simbólico para toda a cena hip hop. A escolha do Club Tenco de olhar para o rap como forma de canção autoral revela um movimento institucional que coincide com a evolução estética e social do gênero — uma espécie de espelho do nosso tempo onde a palavra volta a ser protagonista.
No set que acompanhou a homenagem, o artista apresentou quatro faixas acompanhado apenas pelo baterista Donato Stolfi: Quelli che benpensano, Faccio la mia cosa, Potere alla parola e Autodafé. A última foi interpretada ao lado de Fabri Fibra, com quem dividiu um dueto que fechou sua performance e abriu a do convidado, que foi saudado por Frankie como “o Guccini do rap italiano” — uma analogia que coloca Fibra como pioneiro e referência ética do gênero no país.
O concerto foi montado em torno do novo projeto de Frankie, Voce e batteria, no qual o hip hop se despoja de loops, sequências e samples para recolocar as palavras no centro. Em tempos em que a forma tenta às vezes ofuscar o conteúdo, essa escolha é também um gesto estético e político: o rap visto como cantautorato volta ao essencial, à linha direta entre voz e mensagem.
Em entrevista à Espresso Italia após a apresentação, Frankie comentou também o clima das recentes manifestações: “Guardiamo il dito mentre ci stanno mozzando la mano”. A frase funciona como uma metáfora cortante — o artista chama a atenção para distrações e cenários encenados enquanto direitos e espaços reais são erodidos. É a semiótica do viral aplicada à praça: enquanto fixamos nosso olhar num detalhe, mudanças maiores e mais silenciosas alteram o cenário político e social.
Sobre a participação de Fabri Fibra, Frankie foi direto: escolheu-o pela capacidade de encarar fantasmas pessoais com olhar cirúrgico, uma afinidade de estilo que converteu o dueto em uma espécie de espelho mútuo. Ao mesmo tempo, a premiação amplia a narrativa do rap como voz autoral, validando uma trajetória que há muito dialoga com memória, identidade e denúncia.
Mais do que um troféu, o Premio Tenco a Frankie representa um momento de reconfiguração: o rap, enfim, é reconhecido como parte legítima e necessária da canção de autor na Itália, e essa inclusão revela o movimento contínuo de uma cultura que se reinventa ao correlacionar forma, palavra e responsabilidade social.

