Um ano depois: Von der Leyen cumpriu as promessas? Ativos russos, o 'muro de drones' e a marcha da Ucrânia rumo à UE

Um ano após o discurso de Von der Leyen: quais promessas avançaram? Ativos russos, drones e o progresso na adesão da Ucrânia explicados.

Um ano depois: Von der Leyen cumpriu as promessas? Ativos russos, o 'muro de drones' e a marcha da Ucrânia rumo à UE

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Um ano depois: Von der Leyen cumpriu as promessas? Ativos russos, o 'muro de drones' e a marcha da Ucrânia rumo à UE

Por Marco Severini — Há praticamente um ano, Ursula von der Leyen subiu à tribuna do Parlamento Europeu em Estrasburgo para traçar um ambicioso roteiro político: da prontidão da defesa às respostas a catástrofes naturais, passando por medidas económicas destinadas a sustentar a estabilidade do bloco. O discurso sobre o Estado da União é, por definição, um mapa estratégico — cheio de rotas, pontos de ligação e movimentos por antecipação. Hoje, com perspectiva de jogo no tabuleiro, vale perguntarmos: quantas dessas linhas de ação avançaram, e com que custo político?

Guia Italia + — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘

Entre as propostas que mais chamaram atenção esteve o chamado empréstimo para reparações, ideia inédita que visava converter os ativos imobilizados do banco central russo — uma soma recorde na ordem dos 210 mil milhões de euros — numa linha de salvação financeira para a Ucrânia. A lógica era clara e quase arquitetônica: transformar recursos congelados do agressor em alicerces para a reconstrução da vítima. Contudo, o plano encontrou resistência imediata.

O epicentro do bloqueio foi Bruxelas: o governo belga, liderado pelo primeiro-ministro Bart De Wever, liderou uma campanha para expor fragilidades jurídicas e práticas do mecanismo proposto, mobilizando aliados até forçar a queda da proposta num tenso cume em dezembro. Ao fim das negociações, os líderes europeus optaram por um caminho mais ortodoxo: um dívida comum para financiar um pacote de cerca de 90 mil milhões de euros. A alternativa, pragmática, reduziu o risco jurídico imediato mas também diminuiu o potencial simbólico da iniciativa original — tirar recursos ao agressor para compensar a vítima.

Curiosa e geopoliticamente relevante é a guinada atual: os ativos russos voltaram ao centro do debate depois que Kiev assinalou uma lacuna orçamental significativa, reacendendo a discussão sobre até que ponto os 90 mil milhões serão suficientes. No xadrez da diplomacia, movimentos aparentemente menores nas contas ucranianas podem redefinir, rapidamente, o tabuleiro financeiro da assistência.

Em contrapartida às hesitações financeiras, a Comissão conseguiu avanços concretos no plano da cooperação militar tecnológica. Em julho, Von der Leyen assinou um acordo histórico de cooperação em drones com a Ucrânia — o primeiro do género — e a primeira reunião da Aliança UE-Ucrânia para os drones reuniu-se recentemente. Estes progressos traduzem um deslocamento prático: de palavras altas para entregas técnicas, de formação e interoperabilidade.

O mesmo discurso do ano passado foi marcado por uma imagem quase cartográfica: a proposta de um muro de drones ao longo do flanco leste europeu, evocada após incursões não identificadas no espaço aéreo da NATO que forçaram subidas de alerta dos caças. A expressão, embora chocante, não descreve um muro físico; trata-se antes de um conceito integrado de defesa do espaço aéreo — uma combinação de sensores, interceptores, sistemas de comando e contingência. Nas salas diplomáticas, a proposta deixou muitos perplexos; na prática, ela delineia o contorno de uma estratégia que visa estabilizar o flanco oriental, peça-chave na tectônica de poder em curso.

Quanto ao processo de adesão da Ucrânia, Von der Leyen testemunhou um progresso tangível: desde o último discurso, Kiev conseguiu abrir dois de seis grupos negociais prévios, uma evolução lenta porém relevante num caminho de longuíssimo fôlego. Em suma, o balanço é misto — promessas parciais cumpridas, iniciativas transformadas, outras reconfiguradas por limites jurídicos e cálculos políticos.

Do ponto de vista estratégico, o que assistimos é um episódio clássico de Reálpolitk europeia: propostas audazes encontram a dureza das instituições e dos interesses nacionais, e o resultado é frequentemente uma solução de compromisso. Ainda assim, as vitórias técnicas — como a cooperação em drones — são as jogadas discretas que, ao longo do tempo, mudam o equilíbrio das capacidades. A estabilidade das relações de poder não se decide apenas em grandes declarações, mas em semanas e meses de implementação, acordos técnicos e decisões judiciais que redesenham, silenciosamente, as fronteiras da influência.

Em conclusão, a presidência de Von der Leyen mostra-se eficaz em mover peças no tabuleiro, porém limitada quando confrontada com bloqueios institucionais e interesses nacionais divergentes. O desafio futuro será converter os acordos técnicos e os empréstimos convencionais em alicerces duradouros para uma Europa que deseja ser forte — e coerente — nas suas respostas à guerra e à concorrência global.

Guia Italia + — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘