Orlando Bloom em Veneza: 'Meu país ideal é onde reina a paz' e o enigma poético de Bucking Fastard

Orlando Bloom em Veneza fala de paz e do filme de Herzog, Bucking Fastard, uma fábula obsessiva inspirada nas irmãs Chaplin.

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Orlando Bloom em Veneza: 'Meu país ideal é onde reina a paz' e o enigma poético de Bucking Fastard

Por Chiara Lombardi — Chegando à Mostra de Cinema de Veneza para apresentar Bucking Fastard, Orlando Bloom encarna mais do que um rosto conhecido: é o ponto de contato entre a mítica do ator e o universo obsessivo de Werner Herzog. O filme, em competição na 83ª edição do festival, nasce de uma imagem radical — duas irmãs que escavam um túnel na busca de um país ideal — e transforma essa fixação em fábula distorcida, quase um espelho do nosso tempo.

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A história é inspirada na vicenda real de Greta e Freda Chaplin, mulheres que, sem qualquer parentesco com Charlie Chaplin, ganharam as manchetes por dividirem paixões, sonhos e uma obsessão pelo mesmo homem — figura que no filme tem o rosto de Bloom. Pela primeira vez na tela juntas, Kate e Rooney Mara dão corpo às irmãs, e ao lado de Domhnall Gleeson constroem um triângulo emocional que Herzog conduz com mão de autor.

Em entrevista para a imprensa, Bloom sintetiza a pulsão ética que atravessa o filme: seu 'país ideal' não é um lugar geográfico, mas um estado de coexistência — um desejo universal por paz. Essa resposta ilumina o fio condutor da obra: mais do que narrar um ato extremo, Herzog propõe uma investigação sobre o que levamos dentro quando imaginamos um outro lugar como solução.

Domhnall Gleeson acrescenta ao debate a percepção da veracidade emotiva que o diretor extrai dos intérpretes. Para ambos, a força do filme está na forma documental com que Herzog filma, registrando emoções que parecem improvisadas e, ao mesmo tempo, essenciais. 'Werner filma com um estilo quase documentarista; é um diretor extremamente honesto', observa Bloom, enquanto Gleeson confirma: 'o que acontece é insano, mas as emoções são todas reais'.

Escavar montanhas — metáfora que percorre o enredo e a própria feitura do filme — torna-se analogia perfeita para o ofício do cinema. 'Fazer um filme e levá-lo a Veneza é uma montanha a ser desenterrada', dizem os atores, lembrando que a criação cinematográfica pede resistência, entrega e a capacidade de encontrar lampejos irrepetíveis, como 'capturar um relâmpago numa garrafa'.

Trabalhar com Herzog é descrito como um presente: o diretor, conhecido pela sua obsessão pelas obsessões humanas, encontra em Bloom e Gleeson terreno fértil para explorar os desejos que movem personagens à beira do abismo. Para Bloom, a experiência é quase litúrgica: 'Viver como se o tempo não nos pertencesse e poder criar no mundo dele foi um dom'.

Ao fim, Bucking Fastard surge como uma peça única na filmografia recente — 'quase uma poesia em forma de filme', nas palavras do próprio Bloom. O filme desafia a comparação, apresentando ao público algo que, reconhecemos, talvez jamais vejamos de novo: um reframe da realidade que nos obriga a olhar para dentro, até onde a obsessão pode ser motor de criação e ruína.

Assim, a passagem de Orlando Bloom por Veneza não é apenas a promoção de um longa, mas a apresentação de um espelho cultural, onde ficção e história real se encontram para interrogar o que entendemos por lar, desejo e redenção.

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