Microblazar na Via Láctea: buraco negro IRAS 18293−0941 dirige jato praticamente em direção à Terra
Descoberto candidato a microblazar na Via Láctea: IRAS 18293−0941 emite jato a ~0,75c praticamente apontado para a Terra.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Microblazar na Via Láctea: buraco negro IRAS 18293−0941 dirige jato praticamente em direção à Terra
A cerca de 12 mil anos‑luz, em uma região da Via Láctea encoberta por poeira interestelar, foi identificado um sistema binário que se destaca por emitir jatos de matéria com velocidade próxima à da luz. A fonte, chamada IRAS 18293−0941, é agora apontada por uma equipe internacional como um candidato a microblazar — a versão em escala galáctica dos poderosos blazares alimentados por b uracos negros supermassivos.
Coordenada pelo astrofísico Josep Martí, da Universidade de Jaén, e descrita em artigo na revista Astronomy & Astrophysics, a descoberta combina observações de rádio, onde contribuíram radiotelescópios italianos do INAF e a antena sul-africana MeerKAT, com interpretação multi‑comprimento de onda. O sistema é composto por uma estrela massiva e um buraco negro de massa estelar que completam uma volta em torno do centro de massa em aproximadamente 11,38 dias. Parte do material arrancado da estrela alimenta dois jatos opostos que alcançam cerca de 75% da velocidade da luz.
O que torna IRAS 18293−0941 especialmente relevante é a orientação de um desses jatos quase diretamente para a Terra. Em analogia com a engenharia de redes, quando um feixe de energia é alinhado com a linha de comunicação, a emissão é relativisticamente amplificada — o efeito que torna um blazar tão brilhante. Em sistemas estelares, esses objetos são chamados de microquasares e, quando o jato aponta para o observador, de microblazares.
Os pesquisadores apontam que o conjunto de características observadas em IRAS 18293−0941 corresponde às previsões teóricas elaboradas ao longo de décadas. Entretanto, falta ainda confirmar um traço frequentemente associado a blazares: a variabilidade rápida e intensa da emissão. Segundo a equipe, essa variabilidade pode estar sendo atenuada pelo material denso ao redor do sistema, que age como um filtro, escondendo flutuações rápidas como um cobertor sobre um motor vibrante.
Outra pista que sustenta a interpretação é a presença do jato oposto, cujo rastro não aparece brilhante como o frontal, mas é reconhecido por um ponto quente gerado quando o feixe colide com uma nuvem molecular. Essa assinatura é consistente com a dinâmica de jatos relativísticos interagindo com o meio interestelar, como dutos subterrâneos que terminam em câmaras de impacto.
Do ponto de vista da infraestrutura científica europeia, a detecção reforça a importância de arrays de rádio e de colaboração internacional para mapear o "sistema nervoso" da galáxia e rastrear fontes capazes de acelerar partículas a energias extremas. Se confirmado, o objeto será um laboratório natural para estudar aceleração de partículas, emissão de raios‑X e rádio, e os mecanismos que ligam discos de acreção a jatos relativísticos — camadas de inteligência que conectam o colapso gravítico às partículas observáveis.
Os autores ressaltam a necessidade de observações complementares em várias bandas e de monitoramento contínuo para validar a classificação como microblazar e entender por que a variabilidade esperada não aparece de forma óbvia. Enquanto isso, IRAS 18293−0941 permanece como um exemplo concreto de como estruturas compactas e violentas, escondidas na poeira, podem ter efeitos detectáveis a milhares de anos‑luz, lembrando que a galáxia funciona como uma rede complexa onde pequenas fontes podem disparar sinais em direção a nós.
Créditos da imagem artística: B. Marcote (JIVE/Astron). Publicação original coordenada por Josep Martí et al., Astronomy & Astrophysics. Instrumentação relevante: MeerKAT e radiotelescópios do INAF.

