Houellebecq em Pordenone: “Não me considero um profeta” e a retomada da ficção científica dos anos 70
Houellebecq em Pordenone: rejeita o rótulo de profeta e destaca a atualidade da ficção científica dos anos 70 e a ascensão da inteligência artificial.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Houellebecq em Pordenone: “Não me considero um profeta” e a retomada da ficção científica dos anos 70
Por Chiara Lombardi — Em uma aparição rara e calculada em Pordenone, Michel Houellebecq desconstruiu o rótulo que tantas vezes lhe foi colado: o do profeta. Convocado pela editora Elisabetta Sgarbi para a 27ª edição do Pordenonelegge, o escritor apresentou a coletânea "Tutte le poesie" (La nave di Teseo) e conduziu uma conversa de cerca de 40 minutos com jornalistas, numa conferência que misturou ironia, autoconsciência e referências literárias.
“Não me considero realmente um profeta. E os profetas são um pouco sobrevalorizados”, declarou Houellebecq, arrancando risos e dando o tom do encontro: uma reflexão que atravessa a obra e a recepção pública. O rótulo se cristalizou sobretudo a partir de Sottomissione (2015), romance em que imagina uma França transformada pela vitória nas presidenciais de um partido islâmico — um enredo que, na ótica dos críticos, antecipou cenários políticos turbulentos.
Com o olhar de quem prefere a precisão literária à patrulha midiática, Houellebecq traçou uma distinção: se os profetas bíblicos anunciavam desgraças para subjugar, ele “também profetiza desgraças para oprimir a humanidade, mas sou menos severo e menos mau”, disse em tom de afiado humor. A afirmação devolve ao público a ideia de um autor consciente do próprio papel como espelho crítico do presente — não um vidente místico, mas um cartógrafo das ansiedades coletivas.
Uma das linhas mais instigantes da conversa foi a relação do autor com a ficção científica. Houellebecq recordou que, na juventude, leu muito do gênero e se considerava um especialista. “É uma pena que se tenha esquecido a ficção científica dos anos 70”, lamentou, observando como muitos elementos imaginados naquela época começam a se concretizar hoje — com especial ênfase na inteligência artificial. “Vivemos uma época em que aspectos da ficção científica dos anos 70 começam a se materializar; alguns autores desse período foram profetas, mais do que eu.”
O autor, que alcançou fama internacional com Le particelle elementari (1998), disse inclusive que poderia ser um bom editor de clássicos do gênero, dada sua familiaridade com o material. Porém, fez questão de sublinhar as especificidades do campo literário francês contemporâneo e de sua própria prática: reservado, seletivo nas aparições públicas e atento à linguagem.
Ao ser instigado sobre a atualidade política da França, Houellebecq foi direto: “A esquerda tornou-se super má” (tradução livre do comentário original), uma frase curta que funciona como uma lâmina — simples mas a abrir fissuras interpretativas. Não foi um manifesto, e sim um diagnóstico sintético sobre a tensão que atravessa o debate público.
Houve, ao longo do diálogo, um movimento constante entre memória literária e análise do presente — aquele reframe que faz da cultura popular um espelho do nosso tempo. Houellebecq não se ofereceu como oráculo; ofereceu, isso sim, uma cartografia de inquietações: a literatura como roteiro oculto que antecipa, se confunde e por vezes se assusta com o que inventou.
Ao final, permaneceu a sensação de que o autor continua a operar na interseção entre crítica social e invenção imagética — um artesão do desconforto que nos pede mais do que identificação: pede reflexão.

