Cuba à beira do apagão: isolamento crescente após bloqueio de combustível do EUA

Cuba enfrenta risco de blackout recorde e isolamento por bloqueio de combustível; população recorre a carvão e painéis solares.

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Cuba à beira do apagão: isolamento crescente após bloqueio de combustível do EUA

Cuba enfrenta um colapso energético que se desenha como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: um blackout de proporções inéditas alimentado pela escassez de combustível resultante do endurecimento do embargo dos Estados Unidos, agora ampliado pelo golpe dado ao fornecimento venezuelano no final de janeiro.

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O quadro que se impõe não é apenas econômico, mas também estratégico. Em 2025, a economia cubana contraiu-se em cerca de 5%, somando uma queda superior a 15% desde 2020, sinalizando alicerces frágeis da diplomacia interna e externa. A crise é tão severa que os bispos cubanos cancelaram a viagem prevista ao Vaticano após a suspensão dos reabastecimentos de combustível às companhias aéreas até 11 de março.

Na vida cotidiana da Ilha, as respostas são práticas e por vezes dramáticas: moradores estocam carvão, outros investem em painéis solares — uma alternativa que o governo tem incentivado desde 2024. Mas o sol é privilégio de quem pode pagar; a maioria permanece submetida a uma pobreza estrutural que reproduz memórias do Período Especial de 1991, quando a queda da URSS desarticulou a principal linha de abastecimento de petróleo à ilha.

Antes mesmo do recente aperto norte-americano, Cuba já cobria apenas metade de sua demanda energética. Hoje, a possibilidade de um apagão massivo se aproxima: está prevista uma onda de cortes que poderá afetar 64% das unidades consumidora — novo recorde após o pico anterior de 63% registrado em 31 de janeiro. Desde 2022, a União Elétrica Nacional (UNE) publica regularmente esses indicadores, reflexo do agravamento contínuo da crise.

A UNE, vinculada ao Ministério de Energia e Minas, calcula uma capacidade de geração disponível de 1.134 megawatts diante de um pico de demanda estimado em 3.100 MW para o período crítico da tarde e noite. Das 16 centrais termelétricas operacionais, seis estão paradas por falhas ou manutenção, incluindo duas das três maiores usinas do país. A geração termelétrica forma cerca de 40% do mix energético nacional e foi interrompida — segundo declarou o presidente Miguel Díaz-Canel — por quatro semanas em razão do embargo petrolífero imposto pelos EUA.

Na semana passada, o governo de Havana anunciou um conjunto de medidas de exceção para administrar a emergência: a ilha, que produz apenas um terço do seu consumo energético, teve até a venda de diesel no varejo suspensa como forma de preservar reservas estratégicas. A aviação sofre também as consequências: embora companhias mexicanas mantenham voos regulares, o aeroporto da capital encontra-se temporariamente incapaz de reabastecer aeronaves.

Do ponto de vista estratégico, a situação cubana ilustra uma tectônica de poder onde o redesenho de fronteiras invisíveis — em especial, a alteração do fluxo energético entre Caracas e Havana — produz efeitos imediatos sobre o bem-estar social e a estabilidade política. O isolamento crescente de Cuba não é um acidente; é o resultado de uma sucessão de jogadas políticas e econômicas que confinam a ilha a opções cada vez mais restritas.

Para o observador atento, resta acompanhar dois vetores decisivos: a capacidade do Estado cubano de gerir racionamentos sem colapsar os serviços essenciais e a resposta internacional, sobretudo venezuelana e de terceiros atores, que poderia modular o grau de isolamento. No curto prazo, porém, a população remonta rotas antigas de adaptação — do uso do carvão às instalações fotovoltaicas — em uma cartografia de sobrevivência que mistura pragmatismo e memória histórica.

Em suma, Cuba navega hoje entre apagões programados e a erosão de suas velhas garantias energéticas; um cenário em que cada movimento no tabuleiro regional terá repercussão imediata sobre as vidas que, na prática, já começaram a ser redesenhadas por esta crise.

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