Eleições em Israel: três cenários decisivos com o poder das listas árabes no centro
Sem o apoio das listas árabes, Israel enfrenta governo de minoria, unidade nacional ou novas eleições; três cenários que redesenham o poder.
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Eleições em Israel: três cenários decisivos com o poder das listas árabes no centro
Por Marco Severini — A eleição que abalou os alicerces da política israelense revela, com clareza estratégica, que nenhum dos dois grandes blocos obteve maioria na Knesset sem o apoio das listas árabes. O resultado abre um jogo em que cada movimento será estudado como uma jogada de xadrez, com implicações para a tectônica de poder regional e para a estabilidade interna do Estado.
Os dois eixos principais — o do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o do ex-chefe das Forças de Defesa de Israel, Gadi Eisenkot — não alcançaram assento suficiente para governar isoladamente, segundo resultados parciais de uma votação de alta participação. Em consequência, o papel das bancadas árabes — em particular a Lista Unida, liderada por Yousef Jabareen, e o partido Ra'am, sob Mansour Abbas — torna-se decisivo: sem o seu apoio, nenhum bloco forma coalizão.
Haaretz descreve três cenários possíveis, todos eles com riscos e custos políticos elevados:
- Governo de minoria. Tecnicamente viável, mas politicamente cada vez mais improvável. Para que ocorra, seria necessário o gesto de abstenção da Lista Unida e o voto favorável de, pelo menos, um deputado de Ra'am. Mesmo que os resultados finais apontem para um empate entre os blocos (excluindo os árabes), a coesão necessária não existe: lideranças como Avigdor Lieberman e Naftali Bennett se declararam contrárias a um executivo de minoria, reduzindo as probabilidades de sucesso.
- Governo de unidade nacional. Este seria o caminho mais directo para que Netanyahu permanecesse no poder, mas implica um complexo rearranjo de alianças. Seu apelo à "maioria sionista" foi interpretado como um recado aos parceiros de extrema-direita — Itamar Ben-Gvir, Bezalel Smotrich — e aos partidos Haredi, sinalizando a intenção de preservar essa aliança. Internacionalmente, figuras de peso e chefes de Estado (o texto original cita o presidente dos EUA, Donald Trump) manifestaram preferência por um governo que inclua o bloco de Eisenkot, elevando a pressão sobre Netanyahu. No entanto, o bloco de Eisenkot tem razões para recusar a depender de Netanyahu, temendo perder autonomia política e ser subordinado ao seu comando.
- Novas eleições. Se a negociação fracassar, o tabuleiro pode voltar à estaca zero: convocar novas eleições é uma alternativa sempre presente na democracia israelense, com custos políticos e sociais consideráveis. Este cenário funciona como uma peça de pressão na mesa de negociação: a mera possibilidade de repetir a eleição pode forçar concessões ou, inversamente, endurecer posições.
Em termos estratégicos, estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis: as listas árabes emergem como fator de equilíbrio, não apenas como grupos parlamentares, mas como atores capazes de decidir o destino do executivo. A diplomacia interna e externa já se movimenta, com o presidente Isaac Herzog e atores internacionais observando cada passo. O futuro imediato dependerá da capacidade dos líderes de transformar empates em acordos duráveis, sem sacrificar demasiado a coesão de seus próprios blocos.
Concluo observando que o jogo político israelense, nesses momentos, exige precisão de grande mestre: qualquer movimento precipitado pode desorganizar alianças e abrir espaço para realinhamentos imprevisíveis. A estabilidade regional, por sua vez, aguarda o resultado desse tabuleiro.

