A ascensão dos partidos árabes na Knesset: jogo decisivo para formar governo em Israel
Partidos árabes duplicam presença na Knesset; resultado pode ser decisivo para formar coalizão e desafiar a hegemonia de Netanyahu.
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A ascensão dos partidos árabes na Knesset: jogo decisivo para formar governo em Israel
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no tabuleiro político israelense, os resultados parciais das eleições para a Knesset confirmam o Likud de Benjamin Netanyahu como primeiro partido, mas revelam sobretudo um ganho inesperado e estratégico dos partidos árabes. A aliança restaurada entre Lista Unida (Hadash, Ta’al e Balad) e Ra'am praticamente duplicou os mandatos previstos, alcançando ao menos 17 cadeiras e com projeções que podem levá‑la a 19.
Segundo as apurações iniciais, a Lista Unida obteve 11 assentos (com as três formações que a compõem) e Ra'am isoladamente somou 6. Esses números, embora ainda parciais, transformam-se em fator potencialmente decisivo para a constituição de uma coalizão: no sistema parlamentar israelense são necessários 61 dos 120 assentos para governar, e é exatamente nesse limiar que o jogo eleitoral se torna pauta estratégica.
Há relatos de que o voto feminino na comunidade palestina dentro de Israel teve papel determinante, com mulheres sendo incentivadas por familiares a comparecer às urnas — um dinamismo social que acentuou a representação política neste pleito. Ao mesmo tempo, episódios de tensão antecederam a votação: colonos teriam incendiado três veículos próximos a Ramallah, sinalizando o contexto de fricção que permanece intrinsecamente ligado ao processo eleitoral.
Ahmad Tibi, líder do Ta'al, citado nas projeções com influência estimada em torno de doze mandatos, declarou que já houve contatos com lideranças do chamado campo da mudança para "contribuir na substituição deste governo e abrir caminho à formação de uma nova administração". Tibi sublinhou que é improvável integrar o núcleo central de um futuro executivo, mas insistiu que existem diversas soluções políticas que poderiam incluir participação indireta ou apoio parlamentar.
A aliança árabe também mira mudanças institucionais: um dos objetivos anunciados é alterar a presidência da Knesset, hoje ocupada pelo deputado do Likud Amir Ohana, figura marcada por posições contrárias à presença árabe no parlamento.
Do outro lado, Mansour Abbas, líder do Ra'am, reiterou em campanha sua condenação ao massacre de 7 de outubro — ataque que deixou um rastro sangrento (cerca de 1.200 israelenses mortos e dezenas de civis feitos reféns, 83 dentre 251 citados em apurações) — mas, pragmaticamente, priorizou em público questões locais, como a segurança pública, evitando frequentemente retomar o debate amplo da ocupação.
Em 2021, Abbas quebrou um tabu ao permitir a primeira participação árabe em um governo israelense; a experiência, contudo, foi breve e o recrudescimento dos vetores nacionalistas levou à retomada do poder por Netanyahu em 2022. Hoje, com um parlamento mais fragmentado e os partidos árabes em posição de influência ampliada, o processo de formação de governo volta a lembrar um lance cuidadoso sobre o tabuleiro, onde cada movimento poderá alterar alianças e alicerces da diplomacia interna e regional.
O resultado deste pleito não é apenas aritmética parlamentar; é um teste à resiliência das estruturas políticas israelenses e à capacidade de acomodar vozes árabes na governação — uma tectônica de poder que poderá definir a próxima fase da política israelense e as fronteiras invisíveis da negociação entre comunidades.

