Vítimas de Marko Rupnik escrevem ao Papa e denunciam ‘silêncios’ no processo
Cinco supostas vítimas de Marko Rupnik escrevem ao Papa e denunciam silêncios no processo que consideram nova forma de violência.
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Vítimas de Marko Rupnik escrevem ao Papa e denunciam ‘silêncios’ no processo
Assinam o documento cinco mulheres que se dizem agredidas pelo artista e ex-jesuíta: Gloria Branciani, Mirjam Kovac, irmã Samuelle, Vida Bernard e uma mulher identificada como Pia (nome fictício por medo de retaliações). A carta aberta ao Papa, divulgada pela advogada das denunciantes, Laura Sgrò, combina um agradecimento a um gesto e uma dura crítica aos vazios de informação em torno do processo contra Marko Rupnik.
As autoras afirmam ter acolhido com apreço “un gesto fortissimo e coraggioso” atribuído a S. Exc. Mons. Jean-Marc Micas, bispo de Tarbes e Lourdes, por uma decisão descrita na carta como de acoliência definitiva — uma ação que, segundo as signatárias, contrasta com a hostilidade que enfrentaram dentro de instâncias e ambientes eclesiásticos.
No entanto, o tom central da comunicação é de reprovação. As cinco mulheres reclamam dos numerosos “silêncios” relacionados ao andamento do procedimento canônico que envolve o ex-jesuíta. Segundo a carta, as interessadas ficaram sabendo da abertura do processo apenas pela imprensa, já que o Dicastério para a Doutrina da Fé não teria respondido às reiteradas solicitações de informações feitas pela advogada que as representa.
“Questo rumoroso e prolungato silenzio è vissuto da noi vítimas come una ulteriore e continuata violenza”, dizem as signatárias, citadas na nota. As autoras qualificam o silêncio institucional como uma nova forma de agressão que se soma aos abusos relatados: sexual, físico, psicológico e espiritual. A carta descreve a violência como “prolungata nell'anima” e atribui ao silêncio institucional o peso de um “macigno”.
As denunciantes relatam ainda terem sido alvo de difamação pública: acusadas de serem “meretrices”, mentirosas, pagas para acusar Rupnik ou mesmo de terem lucrado com as denúncias. Segundo o texto, essas agressões públicas desencorajam potenciais outras vítimas a se apresentar, porque transmitem a mensagem de que “è inutile denunciare un abuso all'autorità ecclesiastica”.
Na visão das autoras, um processo celebrado “nell'oblio” não garante direitos nem ao acusado nem às vítimas, contradizendo princípios de direito, verdade, justiça, equidade e misericórdia que, afirmam, estão entre as preocupações do Papa. O apelo final à Santa Sé pede claridade procedimental e um tratamento que ofereça garantias reais de justiça.
Do ponto de vista jurídico e jornalístico, a carta representa uma cobrança formal ao aparato eclesiástico para que transparentize o andamento do inquérito e do eventual processo contra Marko Rupnik. As denunciantes, por meio de sua advogada, reiteram a necessidade de respostas concretas do Dicastério e alertam para o efeito inibidor que o silêncio institucional tem sobre a coragem de outras vítimas em procurar a verdade.
Apuração in loco e cruzamento de fontes permanecem necessários para acompanhar os próximos passos do caso: confirmações oficiais sobre datas processuais, eventuais medidas de proteção às declarantes e respostas formais do Dicastério para a Doutrina da Fé e da Nunciatura. A realidade traduzida pelas autoras é direta: sem transparência, não há justiça.

