Mario Caligiuri: como o desconforto social digital virou risco para a segurança nacional
Caligiuri alerta que o desconforto social digital, alimentado por desigualdades e IA, virou risco para a segurança nacional; soluções exigem ação social e governança digital.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Mario Caligiuri: como o desconforto social digital virou risco para a segurança nacional
Em 2019, o presidente da Società Italiana di Intelligence, Mario Caligiuri, já alertava que as desigualdades, a crise da representação e os algoritmos podiam minar a estabilidade democrática. Sete anos depois, os relatórios oficiais de inteligência confirmam muitas dessas observações. A partir da análise das transformações digitais e sociais, Caligiuri sustenta que o desconforto social digital deixou de ser apenas um problema social para tornar-se uma questão de segurança nacional.
O que, então, ele via em 2019 que o debate público não percebia? E que mudanças ele reescreveria hoje desse ensaio pioneiro? «Na época, e ainda agora, parece-me subestimada a área do desconforto social, que é um fator constitutivo das sociedades contemporâneas», afirma. A globalização e a inteligência artificial vêm acentuando progressivamente as desigualdades. No discurso sobre as recentes revoltas juvenis na França, Espanha e Itália, muitas análises confundem causas e efeitos porque são produzidas por comentaristas distantes das realidades cotidianas de aluguel, emprego e salários.
Caligiuri critica a leitura superficial dos fenómenos: «Muitas vezes não se percebe que há distorções sociais evidentes, por vezes produzidas pelas próprias leis, que desde o início criam vencedores e perdedores». Hoje distinguiria com maior clareza o que é conjuntural e o que é parte de dinâmicas de médio prazo. O texto de 2019 tinha carácter analítico do momento; com o tempo, tornou-se quase premonitório.
Uma marca constante do seu trabalho é deslocar o foco da "notícia falsa" isolada para o ambiente algorítmico que modela percepções e comportamentos. A Relazione 2026 da inteligência italiana, intitulada Governare il cambiamento, aborda precisamente esse desafio. Perguntado se o sistema de segurança já captou essas dinâmicas, Caligiuri responde que o reconhecimento existe, mas ainda falta uma resposta integrada: «As dinâmicas digitais de uma década atrás, em termos gerais, estão a reforçar-se. Com a chegada da IA generativa, tornou-se ainda mais difícil separar o verdadeiro do falso, o legal do ilegal, o tempo de descanso do tempo de trabalho».
A leitura do fenómeno público tende a enquadrá-lo como mero debate político, quando, para Caligiuri, é antes uma oportunidade para reestruturar o tecido social: políticas salariais e previdenciárias, contenção de preços de bens essenciais, revisão tributária, e abordagens sérias sobre drogas e saúde mental. Ele aponta também para o papel das emoções coletivas e para o crescimento de transtornos psicológicos entre jovens — sinais fracos que o Estado deve aprender a identificar. Essas questões recomendam intervenções de prevenção, não apenas de contenção.
Um ponto crítico da sua argumentação é o risco de securitizar o descontentamento: «Se o desconforto social digital for lido apenas como uma ameaça, corre-se o risco de tratar o mal-estar e o dissenso como riscos de segurança, com consequências para liberdades civis e para o próprio tecido democrático». A alternativa proposta por Caligiuri passa por uma combinação de políticas sociais e governança digital: transparência algorítmica, soberania digital, investimento em serviços públicos — sobretudo em saúde mental, habitação e educação — e monitorização ética dos fluxos de informação.
Na metáfora que guia sua análise, a sociedade contemporânea precisa reforçar os alicerces digitais e cuidar do sistema nervoso das cidades. Os dados e os algoritmos são camadas de infraestrutura que orientam comportamento e oportunidades; tratá-los apenas como ferramentas tecnológicas é ignorar sua função estrutural. Assim, as respostas eficazes exigem tanto regulação técnica quanto políticas distributivas que reduzam vulnerabilidades sociais.
Caligiuri conclui com um apelo pragmático: «Ler os sinais fracos não é exercício acadêmico; é prática de governo. É preciso integrar sensores sociais com políticas públicas que removam as causas do mal-estar. Do contrário, estaremos apenas a reforçar mecanismos de controlo em vez de reparar as fraturas sociais».
Em síntese, a mensagem é clara e analítica: o desconforto social digital não é um fenômeno periférico, mas parte do alicerce que sustenta a estabilidade democrática. Tratar esse fenômeno apenas pela lente da segurança é correr o risco de corroer as liberdades que se pretende proteger. A solução exige políticas que atuem tanto na arquitetura digital — algoritmos, soberania, transparência — quanto nas políticas sociais que endereçam desigualdades, saúde mental e condições materiais de vida.

