Enchente de 1966 em Florença: duas exposições narram o resgate do patrimônio cultural

Duas exposições em Florença reconstroem o salvamento do patrimônio após a enchente de 1966, entre fotos, objetos e a criação do Centro de Restauro.

Enchente de 1966 em Florença: duas exposições narram o resgate do patrimônio cultural

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Enchente de 1966 em Florença: duas exposições narram o resgate do patrimônio cultural

Por Chiara Lombardi — Às margens da Arno, a cidade de Florença guardou para sempre a memória de um dia que virou roteiro: a enchente de 1966. Em um gesto de olhar histórico que atravessa meio século, o Museo Archeologico Nazionale di Firenze e o Istituto degli Innocenti, ambos voltados para a praça da Santissima Annunziata, apresentam um duplo percurso expositivo que reconstrói o drama, a mobilização e a urgência do resgate do patrimônio cultural.

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O projeto, intitulado “Curare il passato e proteggere il futuro: Storie del Museo Archeologico Nazionale di Firenze e dell’Istituto degli Innocenti”, se desenvolve em duas mostras paralelas — distintas em escala e acervo — que combinam fotografias de arquivo, depoimentos daqueles que trabalharam no salvamento e uma seleção ampla de objetos e documentos recuperados do lodo. As curadorias — assinadas por Daniele Federico Maras e Claudia Noferi para o Museo Archeologico, e por Arabella Natalini para os Innocenti — procuram mais do que narrar eventos: buscam restaurar a tessitura humana e institucional que permitiu transformar a catástrofe em aprendizagem coletiva.

Como um espelho do nosso tempo, as exposições revelam que a enchente de 1966 não foi apenas um marco na história urbana de Florença, mas um ponto de inflexão para ambas as instituições. No Museo Archeologico Nazionale, a emergência impulsionou uma impressionante operação de salvamento que culminou no fortalecimento do já existente laboratório de restauro, tornando-o referência internacional. Nos Innocenti, emergiu a necessidade urgente de reconstruir a Fabbrica e reorganizar a Galeria de Arte no terceiro andar.

A mostra do Museu, "Salvati dal fango. Il recupero dell’archeologia a Firenze", aberta até 7 de março de 2027, concentra-se em três áreas afetadas pela enchente: o Museo Topografico dell’Etruria, o Ufficio Fotografico e o Laboratorio di Restauro. Por meio de imagens, peças recuperadas das águas e documentos de época, o visitante acompanha os danos e a subsequente mobilização de funcionários, restauradores, estudiosos e voluntários — italianos e estrangeiros — empenhados em salvar o que podia ser salvo.

O episódio mais delicado foi o do Museo Topografico dell’Etruria, concebido por Luigi Adriano Milani em 1897: por meses, equipes vasculharam detritos, recuperando fragmentos minúsculos para recompor objetos e reconstituir contextos arqueológicos. Esse esforço de precisão e paciência desenhou o roteiro oculto de uma preservação que exigia novas técnicas e uma coordenação inédita.

Em resposta à emergência, nasceu em 1966 o Centro di Restauro Archeologico della Toscana, criado pelo Ministério da Instruzione em cooperação com a Soprintendenza e o Istituto Centrale per il Restauro de Roma. Fundado como medida extraordinária, o Centro incorporou equipamentos avançados e saberes especializados, convertendo uma crise numa oportunidade de institucionalizar práticas de conservação que repercutem até hoje.

As duas exposições não se limitam a apresentar objetos e imagens: elas compõem um testemunho sobre solidariedade, técnica e memória. Ao revisitar fotografias em preto e branco e ouvir as vozes dos protagonistas, o público é convidado a refletir sobre a semiótica do desastre — como a cultura registra a perda e como, por meio do trabalho coletivo, reescreve o futuro do patrimônio.

Enquanto percorremos as salas, sentimos a cidade como um set onde se filma simultaneamente o trauma e a sua cura. O que estas mostras nos mostram, afinal, é que salvar vestígios do passado é também configurar o roteiro de uma cidade que decide proteger o seu futuro: um reframe da realidade onde arqueologia, restauro e memória se encontram.

Informações práticas: as exposições podem ser visitadas nas sedes do Museo Archeologico Nazionale di Firenze e do Istituto degli Innocenti; curadorias por Daniele Federico Maras, Claudia Noferi e Arabella Natalini. Salvati dal fango. Il recupero dell’archeologia a Firenze segue em cartaz até 7 de março de 2027.

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