Laços perigosos no tabuleiro: como separatistas do Tirol do Sul se conectam à extrema‑direita alemã AfD
Conexões entre separatistas do Tirol do Sul e a juventude da AfD: encontros, ideologia e riscos para a estabilidade regional.
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Laços perigosos no tabuleiro: como separatistas do Tirol do Sul se conectam à extrema‑direita alemã AfD
Por Marco Severini — Num movimento que revela a tectônica de poder na Europa contemporânea, as conexões entre a juventude do Süd-Tiroler Freiheit e o braço jovem da AfD expõem um redesenho de fronteiras invisíveis que merece atenção estratégica. No fim de agosto, a líder juvenil alto‑atesina Melanie Mair e o brandeburguês Jean‑Pascal Hohm, figura emergente da geração da AfD, trocaram não apenas idioma, mas agenda política e simbólica.
Ambos participaram do congresso da juventude da AfD, o Generation Deutschland, em Magdeburgo — evento que antecedeu o êxito eleitoral do partido nas regionais da Saxônia‑Anhalt. No palco soaram temas que já formam um repertório transnacional da nova extrema‑direita: remigração, antieuropeísmo e etnopluralismo. Mair aproveitou a tribuna para oferecer uma reconstrução histórica do Alto Adige que legitima, na sua visão, a demanda de separação do Estado italiano.
O encontro não foi abstrato: nas semanas seguintes, Hohm foi convidado por Mair a Termeno (Tramin), em Bolzano, para uma conferência do partido sul‑tirolês. A recepção teve a teatralidade calculada que caracteriza movimentos identitários — Mair em traje tirolês — mas também provocou uma mobilização cívica: cerca de duzentas pessoas organizaram um protesto “em defesa do território contra extremistas de direita”, segundo relatos de ativistas locais.
As ligações prévias de Hohm com a Itália são documentadas. Organizações como a Brennerbasisdemokratie, crítica ao separatismo a partir de uma perspectiva ecológica e inclusiva, apontam que ele já visitou a região a convite de Mair e esteve em Roma em 2018, em contatos associados ao movimento neofascista CasaPound. Essas interseções mostram que as redes de influência hoje ultrapassam fronteiras administrativas e se movem como peças em um tabuleiro: cada visita, cada foto, cada apoio público redesenha posições e alianças.
O Süd-Tiroler Freiheit foi fundado em 2008 por Eva Klotz e, nas eleições provinciais de 2023, obteve 10,9% dos votos, consolidando‑se como a terceira força regional. É nesse espaço institucional que se sistematizam narrativas históricas — em particular sobre episódios traumáticos e violentos do passado regional. No congresso da AfD, Mair qualificou ações do Befreiungsausschuss Südtirol — movimento responsável por cerca de 350 atentados nas décadas de 1950 e 1960 — como ações de “combatentes pela liberdade”, enquanto descreveu as forças italianas de então como “aguzzini”.
Além disso, a retórica de Mair reafirma um projeto de etnopluralismo: a defesa de separação e proteção de identidades étnico‑culturais em territórios de origem, com rejeição explícita ao que chama de “mistura” com os italianos. Trata‑se de uma visão que, no eixo geopolítico, casa com as propostas mais rígidas da nova direita europeia — uma convergência que acende alertas sobre a normalização de discursos excluidores em espaços políticos até então regionalistas.
Enquanto analista, observo que não se trata apenas de encontros simbólicos: é um movimento estratégico, de abertura e consolidação de canais, que pode fortalecer discursos e táticas comuns entre forças nacionalistas e identitárias. A estabilidade das relações de poder na região exige vigilância diplomática e civil, pois os alicerces frágeis da convivência multicultural estão em jogo. No tabuleiro internacional, cada peça deslocada aqui reverbera além da província, alimentando uma tectônica de influência que requer respostas calibradas e princípios claros em defesa da democracia inclusiva.

