Inteligência artificial amplia produtividade individual, mas empresas crescem somente com nova governança de processos
AI aumenta a produtividade individual, mas empresas só crescem ao renovar a governança de processos e integrar sistemas e dados.
RESUMO ✦
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Inteligência artificial amplia produtividade individual, mas empresas crescem somente com nova governança de processos
Por Giulliano Martini. Em entrevista ao Espresso Italia/Labitalia, o especialista Andrea Boscaro — consultor em AI e digital, formador empresarial e partner da consultoria The Vortex — traçou um diagnóstico técnico sobre o impacto da inteligência artificial nas organizações. A emergência de ferramentas capazes de redigir documentos, analisar dados, preparar ofertas e gerar conteúdos em frações do tempo tradicional transformou a rotina do trabalhador, mas não garantiu, na mesma proporção, um aumento da produtividade organizacional.
O ponto central da análise é simples e preciso: processos organizacionais não equivalem à soma aritmética das capacidades individuais. São, antes, um sistema composto por fluxos informacionais e decisões interdependentes. Quando um colaborador reduz de três horas para meia hora determinada tarefa, o ganho é real — porém, ele pode ficar retido em gargalos se o resultado tiver de ser transferido manualmente entre sistemas que não se comunicam ou se continuar dependente de procedimentos decisórios inalterados.
Segundo Boscaro, em alguns cenários a difusão de IA pode até exacerbar esses pontos de estrangulamento, aumentando a pressão sobre processos que já funcionavam de forma ineficiente e gerando incertezas e frustrações. A solução, diz o especialista, exige uma leitura sistêmica: mapeamento de processos, identificação de gargalos, integração de dados e sistemas, e reengenharia da colaboração interna.
Há, porém, elementos recentes na evolução das tecnologias que abrem caminho para superar parte dessas limitações. As memórias de contexto dos chatbots cresceram, permitindo operações simultâneas sobre maiores volumes de documentos e informações. Além disso, o desenvolvimento de conetores que autorizam o acesso controlado das soluções de inteligência artificial às aplicações corporativas facilita a integração plena dessas ferramentas aos fluxos internos.
Outro vetor observável é a progressiva atribuição de caráter agentico aos modelos linguísticos: não se trata apenas de responder a perguntas, mas de orquestrar sequências de atividades, acionar fluxos e executar tarefas em cadeia. Essa mudança aponta para uma transição: da fase de incremento da produtividade individual para uma fase em que a produtividade organizacional só será alcançada com uma revisão da governança dos processos.
Na prática, recomenda Boscaro, é imprescindível distinguir três níveis de intervenção: o que pode ser delegado integralmente à AI; o que deve ser automatizado com supervisão humana; e o que precisa permanecer sob responsabilidade humana plena. Esse enquadramento é condição para reduzir a dependência do conhecimento retido por poucos, democratizar o acesso à informação organizacional e eliminar atritos que hoje consomem tempo sem gerar valor.
Do ponto de vista de implementação, o especialista sugere um roteiro técnico: (1) mapear fluxos e atores; (2) identificar e priorizar gargalos que geram custo de oportunidade; (3) avaliar pontos de integração entre sistemas e políticas de autorização; (4) projetar automações com controles de auditoria; e (5) treinar equipes para supervisão e governança contínua. É um processo de governança corporativa digital que, segundo Boscaro, separa iniciativas pontuais de aumento de velocidade individual daquelas capazes de criar vantagem competitiva sustentável.
Em suma, a inteligência artificial já entrega ganhos significativos à escala individual. Atingir ganhos organizacionais, contudo, requer repensar a governança dos processos e integrar tecnologia, dados e responsabilidades em um desenho claro e auditável. Essa é a realidade traduzida por quem acompanha a implementação da AI nas empresas: sem governança, velocidade isolada se converte em ruído; com governança, em resultado mensurável.
Apuração: entrevista presencial e cruzamento de fontes técnicas com especialistas do setor.

