Malika Ayane e a serenidade de aceitar a própria irrilevância: dentro de 'Cicale', o novo álbum

Malika Ayane revela 'Cicale': um álbum sobre tempo, serenidade e escolhas artísticas. Lançamento em 18/09 com feat. de Dargen D'Amico.

Malika Ayane e a serenidade de aceitar a própria irrilevância: dentro de 'Cicale', o novo álbum

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Malika Ayane e a serenidade de aceitar a própria irrilevância: dentro de 'Cicale', o novo álbum

Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que parece saída de um roteiro íntimo, Malika Ayane, aos 42 anos, descreve a paz que encontrou ao aceitar ser “irrelevante no universo”. Essa aceitação é o fio condutor de Cicale, seu novo álbum de inéditos que chega em 18 de setembro, cinco anos após Malifesto (2021). É uma obra que reflete uma artista que se afasta do centro da cena para ver o cenário com mais clareza — um reframe da realidade que soa como um espelho do nosso tempo.

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O momento da entrevista traz um pequeno gesto revelador: ao ver alguém apoiar a bolsa no chão, Malika Ayane arregala os olhos e avisa, sorrindo, que não se coloca a bolsa no chão porque dá azar. A bolsa é imediatamente recolhida. É uma cena que humaniza a narrativa: você pode dialogar com a irrilevância cósmica e ainda assim respeitar os pequenos rituais terrenos.

Em Cicale, o tempo — outra obsessão recorrente de sua obra — volta a ser protagonista. Nas dez faixas do disco, o tempo aparece como aquilo que permite mudar perspectiva, aliviar o peso do julgamento e escolher quais batalhas valem a pena. Essa elasticidade temporal também reflete a própria trajetória de Malika nos últimos anos: ela esteve em musicais (foi Grizabella em Cats), estrelou outros projetos teatrais, apresentou programa de rádio, escreveu um livro de contos, fez inúmeros shows e colaborou com nomes antigos e novos, como Pacifico, Andrea Bonomo e o convidado especial Dargen D'Amico.

Ao falar do single Finalmente, Malika usa duas imagens fortes: não é hora de compor uma versão da sua própria My Way, mas já passou o tempo de viver com a despreocupação de Rossella O’Hara. Entre essas polaridades, ela posiciona seu olhar artístico: madura, confortável consigo mesma e interessada em uma forma de criação que não exige estar sempre no centro do palco.

Sobre o papel do artista frente a temas públicos e políticos, a cantora assume uma postura de princípio: “Um artista deve poder escolher se quer se posicionar ou não”. Referindo-se ao debate que veio à tona com casos internacionais como o de Ed Sheeran e Macklemore, Malika defende a liberdade de escolha como uma espécie de ancora ética — um tema que perpassa o álbum sem transformá-lo em manifesto.

Quanto a Sanremo, ela é direta e ao mesmo tempo leve: voltaria, diz, ao lado de Stefano De Martino, mas não para competir. É um comentário que revela sua relação complexa com os rituais da indústria: a vontade do palco sem a necessidade do confronto público.

Cicale soa, assim, como um mapa de decisões íntimas e coletivas: é pop, mas pensado; é pessoal, sem ser solipsista; é o eco cultural de quem aprendeu a ver sua obra como parte de um tempo maior. Em cada faixa, em cada escolha de parceria e em cada silêncio entre as notas, Malika Ayane propõe um pequeno gesto de liberdade — aceitar a própria insignificância para ser, enfim, mais inteira.

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