Oasis em Veneza: como o calor do público reuniu os irmãos Gallagher no documentário Don't Look Back in Anger
Como o calor do público reuniu os irmãos Gallagher em 'Oasis: Don't Look Back in Anger', exibido em Veneza 83 e chegando ao Disney+.
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Oasis em Veneza: como o calor do público reuniu os irmãos Gallagher no documentário Don't Look Back in Anger
Por Chiara Lombardi — Em Veneza 83 foi apresentado Oasis: Don't Look Back in Anger, documentário que registra a inesperada reunião dos irmãos Gallagher. Dirigido por Dylan Southern e Will Lovelace e com roteiro colaborativo do cineasta Steven Knight, o filme tem sua estreia nas salas em 10 de setembro e chega em streaming, em exclusividade internacional, no Disney+ até o fim do ano.
Os diretores Dylan Southern e Will Lovelace contam que não houve uma reconciliação canônica, com pedidos de desculpas formais ou longas intervenções íntimas. O que efetivamente aproximou Noel e Liam foi o afeto das pessoas — o calor do público atuando como um catalisador. “Onestamente, o desfecho foi incerto até o primeiro concerto”, dizem eles, e essa incerteza é parte essencial da narrativa: por 15 anos, os dois não tinham dividido a mesma sala e, nas filmagens, a entrada de Liam nas provas representa um momento inaugural e tenso.
No filme, a cena é direta e quase cinematográfica: Liam chega, questiona um elemento superficial — “o que é aquilo na bateria? Livrem-se” —, toca por duas horas e vai embora com sua bolsa. Um gesto brusco, muito próximo do realismo documental que o projeto busca capturar. Para Southern e Lovelace, só quando entraram em sala de montagem e passaram a observar as sutilezas das interações entre os dois ficou claro que algo estava mudando. Mas a resposta definitiva veio com o primeiro show ao vivo: aquela energia compartilhada entre palco e plateia, em Cardiff, revelou o momento de virada.
O que o documentário procura mapear não é apenas um reencontro pessoal, mas o efeito circular entre artista e audiência. O público — presente em número e emoção — funciona como um espelho: refletindo memórias, carregando afetos, induzindo um reframe nas relações. “O ingrediente mágico foi o público”, resumem os diretores. A cada concerto, o vínculo entre os irmãos parecia se recompor, nota a câmera: noite após noite, eles se aproximavam diante da intensidade das reações.
Steven Knight, envolvido no roteiro, ajudou a traduzir essa materialidade de encontros e reações em uma narrativa que vai além da cronologia: transforma a reunião dos Gallagher em um fenômeno cultural de alcance global. No documentário, depoimentos do público — de Seul à América do Sul — desenham uma cartografia emocional. Uma mulher da Coreia do Sul, por exemplo, diz que certas músicas a ajudam a se levantar quando cai, e que os Oasis “caem e se levantam com você”. Essa fala sintetiza a ambição do filme: tornar um episódio de celeuma familiar em um espelho do nosso tempo, uma história coletiva.
Apresentado no festival de Veneza, o filme mantém um olhar sofisticado sobre o palco como rito contemporâneo. Não é uma peça de tablóide: é um estudo sobre memória, ídolo e público — a semiótica do viral e o roteiro oculto da sociedade pop. Para quem acompanha o legado dos Oasis, o documentário oferece tanto a visceralidade do encontro quanto a poética do reencontro mediado pela plateia. É, em última instância, um testemunho sobre como a música opera como tecido social, reunindo pessoas e remontando laços que pareciam irreversíveis.
O filme estreia nos cinemas em 10 de setembro e ficará disponível em streaming no Disney+ até o fim do ano, oferecendo ao público global a possibilidade de testemunhar, finalmente, como a plateia foi o personagem decisivo nessa história de volta.

