Roman Polanski revisita a memória da Shoah em 'Non correte! Andate piano!': o silêncio de um pai e as cartas que retornam o passado

Roman Polanski revisita a Shoah em 'Non correte! Andate piano!': memórias do ghetto, cartas do pai e o silêncio que moldou uma vida.

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Roman Polanski revisita a memória da Shoah em 'Non correte! Andate piano!': o silêncio de um pai e as cartas que retornam o passado

Por Chiara Lombardi — Em um movimento que mistura testemunho íntimo e arquivo familiar, Roman Polanski entrega ao leitor um duplo relato sobre a infância marcada pela perseguição nazista. Lançado em italiano pela Adelphi em 3 de novembro, o volume Non correte! Andate piano! (192 páginas, 19 euros), traduzido por Lorenza Di Lella e publicado pela primeira vez na França em 2025, reúne as memórias do diretor e duas cartas do pai, Ryszard Polanski, sobrevivente dos campos de concentração de Płaszów e Mauthausen.

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A narrativa de Roman Polanski traça o percurso da infância no ghetto de Cracóvia, a fuga da deportação e a dolorosa separação do pai, que ordenou ao menino que buscasse salvação. Com apenas nove anos, Polanski assistiu à deportação de seu pai e permaneceu sozinho nas ruas do gueto até ser salvo — segundo ele — por um jovem polonês cujo destino permaneceu, por décadas, um mistério. "Se alguém realmente me salvou a vida, foi certamente aquele rapaz", escreve o diretor, no eco de um desejo antigo de conhecer a história do seu salvador.

A sobrevivência de Roman foi uma sucessão de deslocamentos entre famílias, cidades e a zona rural; já Ryszard enfrentou a deportação e a prisão nos campos nazistas. Por muitos anos pai e filho mantiveram o silêncio sobre o que vivenciaram: "Não tínhamos vontade de falar sobre isso. Havia coisas mais interessantes e importantes: a vida e o futuro", relata o diretor — frase que revela um mecanismo comum entre sobreviventes, onde o roteiro da reparação passa antes pela reconstrução cotidiana do que pela revisitação do trauma.

O resgate desse passado ganhou nova força com o retorno cinematográfico de Polanski ao tema na obra Il pianista, e agora se materializa neste livro que confronta duas vozes: a lembrança oral e reflexiva do cineasta e a escrita direta, seca e atravessada por uma ironia amarga do pai. As cartas de Ryszard, redigidas sem indulgência, traçam a travessia do inferno concentracionário sem autocomiseração, e por vezes é essa distância lacônica que torna a testemunha ainda mais pungente.

A publicação, assinada pela coleção «La collana dei casi», propõe assim um diálogo entre gerações — uma costura entre memória pessoal e memória coletiva — que nos convida a ler o passado como um espelho do nosso tempo. O livro não é apenas um inventário de horrores: é também uma análise sobre os silêncios familiares, sobre como as palavras tardias podem reconfigurar o sentido de uma vida inteira. Aos 92 anos, Polanski revisita suas lembranças com a consciência de quem sabe que o testemunho é um instrumento para compreender não só o que aconteceu, mas por que isso continua a nos afetar.

Essa edição traz à tona questões cruciais sobre a transmissão da memória, a ética do relato e o papel da arte como reframe da história. Entre o tom quase cinematográfico da memória oral e o ritmo contido das cartas, Non correte! Andate piano! se apresenta como um pequeno arquivo afetivo — um roteiro oculto da sociedade que abre espaço para o diálogo entre sobrevivência, silêncio e a necessidade de nomear o passado.

Imagem, data e preço: 192 páginas, 19 euros. Tradução de Lorenza Di Lella. Publicado em França em 2025 e lançado em Itália pela Adelphi em 3 de novembro.

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